28 fevereiro 2006

O Olhar extraordinário

O OLHAR NO EXTRAORDINÁRIO DA NOSSA TURMA

Nos últimos tempos venho pensando muito na historia da nossa turma e tem me impressionado a quantidade de desafios que enfrentamos, as lutas que empreendemos e as dificuldades que ultrapassamos, todos nós bastante jovens, com pouca experiência de vida e sem grandes historias de realizações pessoais. A verdade é que muitos destes desafios teriam desanimado muitas pessoas e ate mesmo nem teriam sido consideradas as possibilidades de enfrentá-los. Como exemplo deve ser citado que o comportamento geral e normal do jovem que não passava no vestibular ou não lograva classificação era fazer novo vestibular, fazer outra faculdade, dirigir seus esforços para outras atividades e até mesmo desistir da carreira universitária.
A nossa turma confrontada com a não classificação na Escola nacional de Química para a carreira de Engenheiro Químico decidiu pelo não usual, enxergou na não classificação uma agressão aos seus direitos e resolveu enfrentar a situação, exigindo seus direitos e não economizando esforços para conseguir que eles fossem respeitados.
A luta não foi somente essa, pois passou pela criação de uma Faculdade de Química – com oferta de 100 vagas - na Universidade Rural do Brasil que era da área do Ministério da Agricultura e não do Ministério da Educação como a Escola Nacional de Química e passou também pela abertura de 100 vagas na Escola de Química da Universidade do Paraná com 60 vagas para excedentes do Rio de Janeiro e 40 para excedentes da própria Escola do Paraná.Passou pelo trabalho constante na Universidade Rural para aparelhar seus laboratórios e salas de aulas para atender ao novo curso; pelo relacionamento destes 100 jovens de origens distintas, e pelo entendimento necessário com os alunos de outros cursos da Rural, principalmente da Agronomia e da Veterinária, todos eles com perfis inteiramente diferentes dos que estavam entrando na Escola de Química recém criada.
É absolutamente necessário enfatizar e agradecer a dedicação e empenho dos nossos professores - que podemos dizer sem nenhuma soberba que eram a nata docente do país - quase todos da ENQ, que se deslocavam diariamente do Rio para o km 47 da antiga Rio - São Paulo onde ficava a Rural, e não poupavam esforços para nos oferecer as melhores condições de ensino, investindo tempo e conhecimento em nossa formação.
Os estudantes de Agronomia e Veterinária eram, em sua maioria, oriundos da zona rural do país, tinham hábitos e costumes bastante diferentes dos excedentes da ENQ e o relacionamento com eles era e foi um exercício complexo de habilidade e flexibilidade, sem ofender suas origens nem deixar de aprender o que tinha para ser aprendido. Um exercício de sabedoria, exercida mesmo sem saber sua gênese.
Um relacionamento com os colegas de Curitiba e os não colegas da Universidade enfrentando todas as dificuldades, como chegar em grupo a Curitiba, cidade que a maioria nem conhecia, com forte ascendência da cultura alemã, sem conhecimento das pessoas e praticamente nenhum na cidade, sem lugar prévio para ficar, pois cada um, ao chegar teve que procurar alojamento na cidade e em seguida fazer a vida cidade e na Faculdade, vivendo com pessoas que tinham cultura inteiramente diferente e assim mesmo continuar e se fazer respeitar.
O que levou jovens não ter receios de reivindicar junto as autoridades muitas delas militares, em um regime militar onde o normal era aceitar as ordens e procedimentos ditados pelo poder centralizador de um regime de força, e buscar seu espaço? O que levou a um desprendimento sem par ao fazer coisas impensadas até então, como buscar apoio junto aos familiares, formar parcerias impensadas, levantar dados e informações tão diversificadas como, por exemplo: quais os quantitativos de estudantes em salas de aulas de engenharia; histórico dos vestibulares passados na ENQ; custos de manutenção de alunos em cursos superiores similares aquele para o qual tinham prestado vestibular; locais na cidade onde poderiam ser instaladas salas de aula; elaboração de manifesto com grande poder de informação técnica e enfoque político adequado às condições e as necessidades; tudo isso com um poder de organização e timing invejáveis, como os resultados comprovaram.
A reflexão sobre o movimento feita agora por quem o acompanhou totalmente, refinada pelo tempo decorrido e apurada em função do olhar apurado feito em cima da historia acontecida, com levantamento dos dados e análise das informações leva a uma constatação extremamente interessante dos fatos e dos resultados obtidos, como pode ser observado a partir das seguintes constatações, todas elas reais e comprovadas:
1- O movimento partiu do nada, não tinha nenhum ponto de apoio e nenhuma alavanca para se movimentar; o que teve foi criado pelos atores;2- O momentum da luta foi muito intenso e muito rápido;
3- A integração com pais / mães foi muito intensa;
4- Os participantes acreditavam plenamente na luta;
5- A participação foi intensa;
6- A dedicação foi total;
7- O desprendimento dos vestibulandos foi notável: jovens falando com ministros sem receios (e ministro naquela época tinha uma investidura de autoridade muito forte); jovens viajando sozinhos para encontrar e falar com ministro em Brasília, em avião de pára-quedista com passagem conseguida por uma das mães e voltando de ônibus (caso do Rafael) e para Curitiba para falar com o Reitor da Universidade do Paraná (caso do Ronaldo que foi e voltou de ônibus para Paranaguá encontrar seu pai e depois falar com o Reitor);8- A criatividade em conseguir uma bandeira e cristalizar sua imagem na mídia, com a efetivação do acampamento no pátio do MEC, que ajudou a divulgar o movimento: estratégia política e tática de marketing;9- A eficácia e efetividade do movimento:
a. - Desencadeado em início de fevereiro em março estava criado o Curso de Engenharia Química na Universidade Rural – as aulas começaram em março mesmo – já com currículo aprovado e professores definidos (diga-se de passagem, currículo elogiado e professores da mais alta qualificação);b. - As aulas na Escola de Química do Paraná começaram em junho, praticamente dando vida a uma Escola recém criada e que se ressentia da falta de alunos e por que não dizer de uma certa irreverência que ajudaram a flexibilizar o curso e os próprios estudantes locais.
Mais interessante é a verificação de que não se estava elaborando nem executando um projeto de entrar na faculdade, o que foi conseguido com a criação do curso na Rural. A análise dos tempos seguintes nos permite afirmar que estava em curso na verdade o início de um processo muito mais amplo e abrangente de modificação profunda na relação estudante x sistema de ensino, que envolvia entre outros:
1- Uma nova forma de relacionamento dos alunos com os alunos de outros cursos, dos alunos com os professores e dos alunos com os administradores universitários;2- Uma relação de profundo respeito com o pessoal administrativo da Universidade;3- Um interesse profundo pelas questões conceituais e práticas da Escola, refletida em atitudes de construção de bancadas de laboratórios até luta pela participação no Conselho Universitário da URB e pelo reconhecimento do curso no Ministério da Educação;
4- Uma participação esportiva em todos os segmentos existentes na Rural;5- Uma participação efetiva na área cultural com alavancagem do cine-clube e otimização do uso do cine-teatro-auditório na Rural – no prédio principal da Universidade, o P1 existia um cinema onde, de 3ª a 6ª feira eram exibidos filmes comerciais para o publico da região, estudante ou não e segunda feira era dia sem uso; aproveitando este vazio e aproveitando também que a 2ª feira era dia de pouco movimento nos cinemas do Rio de Janeiro e em que comumente as companhias teatrais descansavam, aproveitou-se para exibição neste dia filmes de arte e apresentação de peças teatrais – neste cine teatro foi apresentada entre outras a peça Dois Perdidos Numa Noite Suja do dramaturgo Plínio Marcos, com o próprio e Fauzi Arapi, dupla que protagonizou a melhor performance da peça;
6- Uma participação política, como grupo, de certa forma modesta, mas sempre pautada pelo equilíbrio; ainda assim devem ser citados a criação e funcionamento do Diretório Estudantil da Escola de Química e da Associação Atlética; considerando a participação individual a contribuição foi brilhante, pois um de seus componentes (o Ademir Santiago) chegou a ser Presidente do DCE , isso em 1968, dois anos após a criação do curso.
Nessa luta continuada chama atenção o trabalho efetuado para o reconhecimento do curso junto ao Ministério da Educação, processo reconhecidamente lento e que todos os que tinham experiência no assunto diziam ser praticamente impossível ser concluído em menos de 05 anos. Pois os inexperientes conseguiram levar o processo a bom termo em menos de 01 ano, um feito muito festejado por todos na Rural, pois alem de garantir um diploma reconhecido pelo ministério da Educação, como qualquer outro de qualquer curso ainda dava a Universidade Rural uma nova dimensão no cenário nacional.
Esse processo teve continuidade profícua, quando se sabe que alavancou a passagem da Universidade, então U. Rural do Brasil do âmbito do Ministério da Agricultura para o Ministério da Educação, aumentando a amplitude da Universidade, otimizando o acesso a recursos financeiros de informação e colocando-a no mesmo patamar das demais universidades brasileiras, potencializando a criação de outros e diferenciados cursos possíveis com a nova investidura da universidade. Essa mudança de configuração estrutural aconteceu durante a passagem da nossa turma pela Rural.
Tantas conquistas, em segmentos os mais distintos, de aspecto prático, de cunho social com ênfase no relacionamento interpessoal, nas áreas culturais, esportivas e políticas, em tão pouco tempo, configuram uma atividade transformadora e com eficácia, uma atitude empreendedora. Mostram que o grupo não se conformava nem queria apenas seguir rumos do conforto profissional que era praticamente garantido naquela época com a conclusão do curso. Queria mais, estava indo contra o status quo vigente, estava lutando contra o establishment, queria mais: fazer seus próprios caminhos, criar e continuar a ousar.
Esse espírito teve prosseguimento no pós Universidade pois a turma continuou se reunindo em almoços, eventos maiores a cada cinco anos e tendo uma base de sustentação na manutenção da base de dados constantemente atualizada e disponibilizada para os interessados e a troca de informações entre os colegas. Isso sem dúvida realça o espírito de corpo da turma, favorece a adesão e mantem a união.
Os fatos são inquestionáveis, mas o que sempre me chamou atenção foi o porque desse furor empreendedor naquela turma, o que levou aquele grupo a ser o que foi, a ser o que é, uma vez que continuam se encontrando com uma participação de cerca de 40 a 50% da turma em encontros qüinqüenais com seus familiares e em grupos menores em almoços até mesmo mensais?Muitas coisas têm sido levantadas para explicar a luta, a união, o processo criativo e transformador, como por exemplo:
· Ter contado com um grupo competente e interessado de pais e mães, com alta capacidade aglutinadora e de organização ajudou a dar forma e estruturar o movimento;
· O fato de a turma ter tido sempre que lutar para conseguir seus propósitos exacerbou o espírito corporativo;
· A entrada em grupo em um ambiente onde as pessoas tinham outros hábitos e costumes e era de certa forma hostil como pela situação que se apresentava – um grupo de alunos para disputar recursos financeiros e materiais que não estavam sobrando para os que ali estavam - deveria mesmo ser obrigou ao fortalecimento da união como forma de defesa e conservação;· Como na época os estudantes formavam turma e seguiam juntos a cada ano fazendo as mesmas matérias –ainda não tinha sido adotada o sistema de créditos que desfez as turmas, dissolveu os relacionamentos continuados e pulverizou o companheirismo – juntava as pessoas e promovia a agregação dos colegas, fortalecendo a amizade;
· O sistema de Universidade, configurando um verdadeiro campus universitário, onde os alunos ficavam juntos nas salas de aulas, no refeitório, nos momentos de lazer, e até dormiam e estudavam nos mesmos quartos, criava uma situação de favorecimento ao fortalecimento do espírito de equipe;· O próprio ambiente da Universidade Rural, com seus campos gramados e arborizados, seus lagos plácidos, seus pavilhões de belas construções de estilo colonial que acolhiam com conforto e cuidado seus passantes, tudo no campus passava uma tranqüilidade ao feliz habitante e facilitava a integração do homem com a natureza, propiciando uma paz de espírito e uma vontade de se relacionar com harmonia com os companheiros e com o meio ambiente.Tudo isso explica a união e o fortalecimento dos laços de amizade e até mesmo mostra fatores que ajudaram a conseguir o atingimento dos objetivos, mas existe uma anterioridade que necessita ser buscada, entendida e explicitada: o porque dessa turma ter desenvolvido e bem esse processo já que nenhum deles tinha conhecimento nem experiência neste assunto que deveria envolver necessariamente: conhecimento, vivência, capacitação, planejamento, programação, experiência para lidar com questões complexas que geralmente aparecem no desenrolar de processos como este capacidade de execução, controle e acompanhamento (características comumente desejadas e procuradas em profissionais de nível superior com algum tempo de vivencia da profissão), o que nenhum deles tinha ou sabia que tinha, mas que certamente nunca havia sido explicitado com tanta ênfase?Tenho defendido sempre que a turma era especial nas suas individualidades e principalmente no seu conjunto, porque sem uma carga grande de características peculiares, diferenciadas do comum, de pensamento não conformado com a rotina, com uma visão do extraordinário, não seria possível a concretização de objetivos super audaciosos como aqueles do movimento e mais ainda na manutenção da luta durante os anos da Faculdade e continuados nas reuniões qüinqüenais com participação de mais de 50% da turma e reuniões mais freqüentes como os almoços mensais que chegam a reunir 20 colegas de turma. A turma era especial sem dúvida alguma, mas me faltava o embasamento técnico cientifico do modus comportamental dos integrantes da turma, no plano individual e do coletivo que explicasse e definisse esse extraordinário, esse especial de que eu tinha certeza, aquele grupo de revestia.
Na seqüência das entrevistas que vimos fazendo para formar a base de informações do livro Sua Excelência o Excedente, chegamos ao contato com o Aranha, que hoje é o Diretor do Instituto Gênesis, órgão da PUC-Rio que faz com competência a ponte estudante mercado de trabalho, despertando, incentivando e promovendo o empreendedorismo destes jovens, inclusive operando a Incubadora de Empresas e viabilizando a formação de Empresas Juniores, e que teve um papel importante na historia da nossa turma e da Escola de Química da Rural.
Durante a entrevista ele fez um comentário que bateu direto na gente – os entrevistadores – sobre o melhor aproveitamento de extratos das turmas que se prestam melhor ao empreendedorismo. Ele comentou que historicamente em cada turma existe um extrato composto pelos alunos que tem melhores resultados acadêmicos, que são os que se aplicam mais e procuram as melhores notas; em seguida vem um extrato composto daqueles alunos que são competentes, aplicados, mas nem tanto e que não se preocupam tanto com notas, mas tem conhecimento do assunto. A terceira faixa é dos alunos que nem se aplicam, nem tem bons resultados nem se preocupam com isso. Segundo ele a primeira faixa – dos alunos com melhores notas – é a daqueles que se preparam para seguir e fazer bem feito o que está e vem sendo feito e, portanto são excelentes profissionais, excelentes gestores e geralmente fadados a uma carreira de sucesso no mundo profissional / comercial estabelecido. São assim excelentes fazedores e gestores.
A segunda faixa é a daqueles que anseiam por mudanças e por serem assim não deixam de seguir os estudos dentro dos parâmetros estabelecidos, mas não se deixam dominar por estes paradigmas, e reservam parte das suas energias para sonhar, pensar em fazer algo novo. Estão na faixa dos que não se conformam com o estabelecido e ficam a pensar – pensar, o bem mais precioso do processo do conhecimento – em como fazer diferente, como fazer melhor. Eles são os modificadores, os transformadores, os construtores e é nessa faixa que se concentra a busca e é maior o interesse pelo trabalho no Instituto Gênesis. Nesta faixa são procurados os empreendedores do futuro. Esse comentário – afirmação do Aranha como que explica e qualifica meu pensamento inicial sobre a potencialidade da nossa turma. Nos não fizemos parte do primeiro faixa dos vestibulandos, visto que este extrato se classificou para a ENQ e possivelmente era a faixa / extrato dos fazedores / gestores. Nossa turma estava toda ela contida na segunda faixa / extrato e, portanto inserida no que se poderia chamar de modificadores / transformadores o que explica a profusão atividades nas quais esteve e está sempre envolvida seja através de suas individualidades seja através do coletivo que se revelou no desencadeamento e execução do processo que culminou na criação do Curso de Química da Rural, no reconhecimento do curso junto ao Ministério da Educação, na ajuda constante para viabilização da escola, na interferência nos esportes e nas artes, no fortalecimento do relacionamento pessoal dos alunos da Rural e na vontade demonstrada pelos seus componentes de fazer mais, de participar mesmo estando alguns com seus projetos profissionais concluídos e suas vidas estabilizadas. Mesmo assim se interessam pela vida e se interessam pelos outros.
Essa é uma explicação com fundamentos práticos concretos e que pode e deve ser trabalhada com levantamento e análise de dados junto a turma que entrou na ENQ naquele mesmo vestibular e também junto as três turmas subseqüentes a nossa já que estas tiveram as mesmas condições que a nossa turma teve na Rural.
O fato existe – realizações expressivas com alta dose de eficácia – a anterioridade que explica e justifica o resultado existe e aponta para uma existência do extraordinário em cada um e no todo e a explicação parece ser essa avançada pelo Aranha.
Falta embasar cientificamente essa explicação e até que isso seja feito – o que pode ser conseguido no desenrolar do projeto do livro, o que inclusive agregará um valor enorme à obra – pode-se dizer:
CQD

23 fevereiro 2006

As Fotos das nossas Guerreiras




Da Lize, mãe da Telma Da Lilia, mãe da Sandra e Da Lia mãe do Rafael

As três estão super bem, lembram de tudo e ficaram bastante alegres com o encontro e felicitaram a iniciativa da turma. Elas acham que o movimento deve ser mesmo documentado porque foi muito bonito, exemplar.

Telma, Paulo Cesar, Da Sandra, Da Lize, Eliane, Da Lia e Antonio Barbosa e na câmera este que vos digita.

Um abraço

Jose Maria

21 fevereiro 2006

As Três Adoráveis Mães

Ola amigos
Estamos colocando no ar a entrevista com as mães da Telma, do Rafael e da Sandra Ribeiro, que foram muito atuantes em nosso movimento para ingressar na Faculdade nos idos dos anos 60. Estivemos com elas em um cha extremamente agradavel na Modern Sound, em um encontro agendado pelo Rafael e pela sua esposa Eliane. Segue a síntes da entrevista com estas adoráveis e queridas pessoas, a quem admiramos tanto:
Sintese da entrevista com as Sras.:
Lize Bravo da Costa Ferreira, Lia Dell’Isolla e Lilia Almeida Ribeiro.

Data: 15/02/2006 Local: Modern Sound

Entrevistadores: JMMJ, APGB e PCXS.
Também presentes: Telma nossa querida colega e Eliane, esposa do Rafael.

Zezinho fala da admiração que nós, a turma, temos por elas e pelo trabalho que elas realizaram, responsável em grande parte pela realização de nossos sonhos.

Souberam do movimento através dos filhos e se reuniam diariamente no pátio do MEC. Não se conheciam anteriormente. Lembram que tinha o Cel. Espírito Santo (pai da Terezinha), que era Comandante do forte Copacabana, que havia Também o Cel. Kneipp, pai da Ana Maria, que era da Intendência do Exército e trabalhava com o Gen. Costa e Silva (que viria a ser o próximo Presidente da República na era Revolucionária) e tinha também o Lucena, pai do Eugênio. A Da. Lia atribui ao Brigadeiro Eduardo Gomes o nosso ingresso na faculdade, pois ele não achava certo que alunos aprovados, com média suficiente, ficassem como excedentes sem direito a ingressar na faculdade. A Da. Lilia tinha 2 filhos como excedentes, a Sandra, que era nossa colega e o Arnaud, que depois prestou vestibular para engenharia mecânica na faculdade de Guaratinguetá, onde veio a se formar. Também foram com ele, prestar vestibular nessa faculdade o Raja Gabaglia e o Alexandre.
Da. Lia – eram 549 alunos para ingressar, com apenas 100 vagas na ENQ.
De posse da lista dos aprovados, ligaram para buscar vagas entre os desistentes.
Houve contato com um político que disse que conseguiria vaga apenas para 4 alunos que haviam trabalhado para seu gabinete.
Os mais atuantes eram o Lucena, pai do Eugênio, a Da. Lígia, mãe do Raja Gabaglia e a Da. Lize. Foram elas que estiveram com o Brigadeiro Eduardo Gomes. Tinham diariamente audiências com o Ministro através do Ministério da Educação. Quando houve a reunião com o Presidente Castelo Branco era para o Lucena ir, mas ele achava que a Da. Lize tinha mais jeito e o Cel. Espírito Santo a considerava uma líder nata.

A Comissão de pais era constituída, além delas, da mãe do Alberto, Sr. Eugênio Lucena, pai do Eugênio pelos Coronéis Espírito Santo, pai da Terezinha e Kneipp, pai da Ana Maria, Da. Lígia, mãe do Raja Gabaglia.
A Da. Lilia considera que o Ministro da Educação, Dr. Pedro Aleixo foi quem deu o empurrão inicial na campanha para abertura de vagas. Mas a Da. Lize achava que ele estava enrolando.
Da. Lize também esteve na TV Rio fazendo campanha para a abertura de vagas.
O Da. Lize e o Sr Lucena conseguiram marcar reunião com o Presidente Castelo Branco e o Sr Lucena era quem iria mas ele achou que ela quem deveria falar com Presidente. Ela esteve com o Presidente, no Palácio das Laranjeiras, levando as fotos que o Sr. Eugênio Lucena tirou da Rural, provando que havia espaço disponível para os alunos naquela Universidade. O Presidente ouviu a Da. Lize chamou um oficial de gabinete e mandou que ele resolvesse todos os seus problemas. O Presidente comentou que esses movimentos estudantis eram um problema sério, pois tinham mais aspectos políticos que reivindicações estudantis. Ela afirmou que não sabia nada de política e sim o pleito de abertura de vagas. A Da. Lize tem certeza que o então ministro da Agricultura Nei Braga viu as fotos, uma vez que o seu primo, Sr. Francisco Magalhães, que era chefe do gabinete, viu as fotos com o ministro. Depois da reunião com o Presidente houve outra no gabinete do Ministro Nei Braga, já com as coisas mais definidas em torno da Rural.
Para as vagas em Curitiba Da. Lígia, mãe do Raja Gabaglia e a Da. Lize se empenharam, conseguindo que o Brig. Eduardo Gomes redigisse de próprio punho um bilhete endereçado ao Ministro da Educação, Dr. Pedro Aleixo solicitando as vagas para os excedentes. O próprio Rafael foi a Brasília entregar em mãos ao Ministro o bilhete, que surtiu o efeito desejado.
Em nenhum momento essas Sras. acharam que não conseguiriam as vagas, pois já que nós havíamos passado, tínhamos o direito às vagas.
Quando a Telma foi para a Rural a Da. Lize ficou um pouco apreensiva, pois a filha iria morar longe de casa, num outro ambiente. O Zezinho lembra que os colegas de turma tinham um cuidado grande com as meninas. Suas primeiras impressões foram muito boas. A Telma lembra das festas que eram muito boas e até há o caso de uma amiga sua que conheceu naquela época, em uma das festas, um rapaz, estudante de agronomia e estão casados até hoje.
A Da. Lia, apesar de seu filho ser homem, ficou também apreensiva pelo Rafael ir para Curitiba, longe dos pais e de sua cidade. Quanto ao estudo não ficou preocupada com isso, pois ele sempre foi muito estudioso, muito inteligente e aplicado, mas quanto ao afastamento sim, ela ficou preocupada. Não ficou preocupada quando ele pegou avião da FAB e foi a Brasília falar com o Ministro Pedro Aleixo, pois ela tinha muita confiança nele, sempre foi muito equilibrado, sempre soube se defender muito bem.
Não tinham participado de nenhum movimento desse tipo e não têm conhecimento de movimento similar antes do nosso. O movimento foi espontâneo, sem nenhum líder de fato, embora a organização fosse mais das mães, pois tinham tempo para se dedicarem. Além disso, os pais tinham capacidade de chegar a outros níveis de contato, enquanto os alunos faziam o movimento de rua. A Telma caracteriza que os pais organizavam, conseguiam os contatos, enquanto que o movimento para o povo e imprensa era feito pelos alunos.
Perguntada sobre como soube que havia ficado excedente a Telma não lembra, mas recorda que ficou frustrada pela perspectiva em perder um ano de sua vida e pelos gastos de seus pais. Lembra que resolveu fazer engenharia química porque gostava de química. Diz que na nossa época não tinham muitos meios para escolher profissões, nem era muito comum fazer testes vocacionais. Não sabem identificar qual o pai que tomou a frente do movimento. Acham que foram vários, simultaneamente e em várias frentes, sem ninguém em destaque. A Telma lembra que antes do acampamento já havia movimento de rua, com passeatas, faixas, camisetas, mas não lembra como exatamente começou. Perguntada sobre um evento para pressionar o Presidente Castelo, que aconteceu no Ministério da Fazenda, onde era o gabinete dele no Rio, ninguém lembra disso, mas a Da. Lia lembra que foram ao Palácio Laranjeiras procurando falar com ele e este saiu sem dar a mínima pelota para as pessoas na calçada, embora todos saíssem correndo atrás de seu carro. Nessa pequena multidão tinha pais e alunos, mas não todos, pois não podiam se afastar do pátio do Mec. A Telma gostava da Rural, foram bons anos. Chegou a ser candidata em concurso de miss na Rural. Só reclamava um pouco da comida, mas as festas, as condições de estudo e as amizades compensavam.
O Rafael, embora gostasse de Curitiba, pois a Faculdade era nova, com bons equipamentos, não se adaptava muito a cidade. Da. Lia e seu marido foram a Curitiba levar o filho. O Zezinho lembra que Curitiba não era fácil... O pai do Rafael teve três enfartes e no último o Rafael estava fazendo as provas. O seu pai dizia que assim que o Rafael entrasse na Universidade ele poderia morrer sossegado e veio a falecer dias antes da formatura. A Eliane relata que o Rafael está revivendo uma época especial depois que soube sobre o livro. O Zezinho lembra que foi o Rafael quem marcou essa entrevista.
Lembram de cenas e fatos do acampamento, onde o Samy andava com um pedaço de pau para espantar os intrusos. Houve uma tentativa de invasão de bichas da Cinelândia no acampamento, mas não tiveram sucesso nenhum. A Telma lembra que houve um grupo de teatro que se apresentou no acampamento – um dos recortes de jornais que a Telma trouxe mostra essa cena. (A Telma trouxe vários recortes de jornais da época, organizados em ordem cronológica, fixados em cadernos de desenho – uma preciosidade!). O Diário de Notícias do dia 17/03/66 noticiava que o acampamento já acontecia há 10 dias.
Lembramos que elas devem se orgulhar da eficácia e eficiência do movimento, pois em pouco tempo, pois desde a data que soubemos que éramos excedentes até a abertura das vagas passaram-se apenas 62 dias, isso com o carnaval no meio.
Perguntadas se lembram do Capitão Shwab, lembram que ele andava sempre com o Cel. Espírito Santo. O Movimento foi muito elogiado pela ordem e pelo teor pacífico.
Fizeram referências, entre outros, ao Maranhão, Alberto Macaco e ao Ronald.
Um abraço
Jose Maria

11 fevereiro 2006

Revisão Entrevista Tuninho

Para voces verem a importância que está sendo dada ao projeto do livro Sua Excelência O Excedente, o Tuninho leu a síntese da entrevista dele e nos enviou uma revisão. Seria muito bom para o projeto e para todos nós que todos os participantes do moviemnto se manifestem, seja através de depoimentos, seja através de comentários aos fatos que estão sendo expostos neste espaço.
Façam seus comentários e críticas. Acessem o comando comments que se encontra no final desta postagem e terão a disposição uma janela para fazer as considerações / críticas que ficarão incorporadas e poderão ser lidas e (re)comentadas por outros leitores.
A seguir a revisão da entrevista do Tuninho:

arq "entrevista com o tuninho revisada.doc"

Entrevista com o: Antonio Carlos de Miranda – Tuninho.Data: 24/01/2006 – casa do Zé Maria. Presentes: Zé Maria, Baixo e PCXS.Porque Engenharia Química? Na infância, morava nos fundos da farmácia do pai e vivia querendo mexer na vidararia do laboratório de manipulação para aviar receitas. Motivado pela prática do aeromodelismo e pelo fascínio de shows aéreos no Aero-Clube de Manguinhos na adolescência, ingressou na Escola Preparatória da Aeronáutica em Barbacena – MG. Ele queria ser aviador, mas não tinha vocação para carreira militar, porque era indisciplinado e vivia preso. Como o mundo é pequeno, naquela escola foi colega do Ivan (Catodo), do veterinário Paulo Roberto, assistente do professor Khön (?), do irmão do Ademir, que também é químico e do irmão do Catramby, que é brigadeiro.Abandonou a carreira militar quando terminou o “científico” e em 1964, foi trabalhar como arquivista de desenhos técnicos em Furnas. A facilidade que tinha em aprender química, apesar de maus professores, o levou a fazer vestibular para a ENQ em 1965, porém não passou. Estava insatisfeito com o trabalho e mantinha a pretensão de ser químico. Pediu as contas em Furnas, conseguiu uma bolsa no curso Vetor com o professor de química, Vitor Nótrica e prestou novo vestibular, apenas para a ENQ em 1966. Quando foi verificar o resultado do vestibular, havia muitos candidatos junto ao quadro de avisos. Por causa do tumulto e da distância, tinha dificuldade de conferir a lista. Ao seu lado, um cara grandalhão boa praça, ofereceu ajuda - era o Samy, que disparou: “você não passou e está classificado logo depois de mim, mas fica frio meu chapa”, foi logo dizendo que havia um movimento se formando para forçar o governo a aumentar as vagas e aproveitar os candidatos aprovados excedentes. Ele pediu o telefone para contato e na semana seguinte, foi chamado a comparecer ao pátio do Ministério da Educação. Lá chegando encontrou o Samy, o Maranhão, o Baixo, o Mario Newton, o Rafael, o Ronald, o Alberto Macaco e sua mãe, o Eugênio e seu pai, a Ana Maria, a Telma e a Sandra Ribeiro, acompanhadas das mães que mantinham os ânimos elevados e as esperanças acesas. Ainda muito desolado, pressentiu uma esperança e passou a freqüentar o pátio do MEC. Naquela ocasião foi a duas reuniões: na casa do Raja Gabaglia e provavelmente na casa do Victor Catramby. Nessas reuniões e no pátio do MEC, o Maranhão já despontava com liderança lúcida e conciliadora, mas também havia propostas de radicalização, tais como atirar pedras nas janelas do MEC e invadir o gabinete do Ministro da Educação em plena ditadura: era o Guerra!... Mas a liderança de fato e a iniciativa das ações era exercida pelo pai do Eugênio, com a participação ativa das mães da Telma e da Sandra, para formar comissões, visitar professores, membros do conselho federal de educação, políticos, meios de comunicação, etc. Nota do entrevistado – não posso afirmar ou julgar que os pais militares não ajudaram, (os meus pais e os de muita gente também não ajudaram o movimento). Sei que os filhos estavam lá: a Ana e a Terezinha (com as mães), porque naquela época moças não andavam desacompanhadas; lembra? Após um mês de concentrações no pátio do MEC, constatou-se que essa concentração não causava impacto à população, pois o grupo de excedentes ficavam engolidos pela multidão do pátio, local de grande circulação de pedestres. Então o pai do Eugênio, com entusiástica motivação, propôs que acampassem lá mesmo, criando um acampamento dentro do pátio. Começaram com uma barraca e com uma faixa reivindicando as vagas para os excedentes. A barraca servia de sede do comitê e era montada e desmontada todos os dias. Aquela barraca tornou-se a “bandeira” do movimento. Alguém conseguiu barracas de campanha da PM, confeccionaram mais faixas e cartazes e organizaram turnos para e montaram um acampamento permanentemente. Neste rodízio, o Tuninho ficou na “turma da noite”, junto com o Samy, o Baixo, o Maranhão, o Moscou e o Guerra. O Samy levou o baralho e o Baixo o violão... As meninas ficavam até tarde, mas não à noite (como convia ao costumes da época). Eram 5 barracas e alguns sacos de dormir. Lembra que sempre havia alguém do movimento falando nas rádios e TVs, inclusive no programa do Chacrinha, o mais popular programa de TV da época. Fizeram até música e havia gozação acerca daquele novo estado ocupacional: -“você trabalha ou estuda?” “Não, sou excedente!”. As notícias e fotos começaram a sair nos jornais. Isso incomodava. No Ministério da Educação exigiram que retirassem as barracas, fato que não podiam acatar, pois perderiam a visibilidade. O movimento incomodava e começava a fazer efeito! Ir a rádios e TVs não era a função do Tuninho - a dele era ficar na turma da noite no acampamento. Havia uma organização, com funções predeterminadas e estratégias de ação. Tinha sempre cerca de 20 pessoas no acampamento. Alguns dos mais assíduos, além dos já citados que o Tuninho lembra: Gentil, Celso Colombo, Bala, Vitor, Diana, Alexandre, Raja Gabaglia e outros próceres injustiçados pela memória, que novos entrevistados corrigirão. Alguns dias após o pedido de retirada das barracas, numa madrugada de domingo, às 4h, a PM invade o acampamento, derrubando as primeiras barracas e acordando a rapaziada. Alguém avisa para não quebrar as barracas, pois elas eram da própria PM. Os PM passaram a agir com mais educação e até ajudaram a desmontar as barracas. Ficharam cada um dos acampados e os levaram, um a um, às suas casas. A ação foi comandada por um tenente, muito estranha por parte do pelotão da PM, já que em plena ditadura, estava acostumada a “baixar o cacete” nos movimentos estudantís. Houve uma clara orientação para agir com moderação com aqueles rapazes. Considerando o fato de que a remoção das barracas era inevitável e prevista, é possível que houve ingerência de algum coronel, ou de alguém muito influente, para amenizar a violência contra os colegas de seus filhos que estavam acampados.A primeira hipótese de aproveitamento dos excedentes foi na Universidade Federal do Paraná. Mais tarde, Porém, os excedentes que permaneciam no pátio do MEC foram comunicados da grande possibilidade de abertura de Escola de Química na Universidade Rural e que haveria uma assembléia com os alunos e professores daquela Universidade. Formaram uma comissão para ir até lá para e se inteirar da situação: Celso, Samy, Bala, Ronald, Rafael, Eugênio, Maranhão, Macaco e o Tuninho. Não sabiam chegar na Rural e pararam meio perdidos na Av. Brasil, em Guadalupe. Aos trancos, chegaram ao km 47 da antiga estrada Rio-S.Paulo. Ao entrarem no PI, na Rural, foram mal recebidos pelos verdureiros e capa-gatos, que estavam reunidos, em grande número na entrada e corredor que dá acesso ao auditório da Rural. Passaram por verdadeiro “corredor polonês” e se viram acuados. O Tuninho achou que iriam passar por uma sessão de trote. O auditório estava lotado, mas foram levados para as primeiras fileiras, onde havia lugares reservados para eles. Sentados à mesa, no palco, estavam os Prof. Alvahido, o Reitor Paulo Dacorso e o Paulinho, Presidente do Diretório de Alunos da Rural. Este fez um discurso inflamado questionando o Prof. Alvahido e o Reitor, porque queriam criar o curso de Química e não era atendida as prioridades dos cursos de Agronomia e Veterinária, como o curso de Zootecnia e as obras no hospital veterinário. O Prof. Alvahido expôs que historicamente o estudo de química no Brasil tinha sido iniciado na Escola de Agronomia e que ao insistir na reintegração da Escola de Química estava pensando no futuro da Universidade Rural e retornou a palavra ao Paulinho, que, sabendo da determinação do reitor, deu o fato consumado e desejou boas vindas aos novos alunos, convidando alguém da comissão que falasse em nome dos demais. O Ronald tomou a palavra agradecendo aos presentes e emocionado, falou que não pretendíamos tirar vaga de ninguém e se faltassem vagas nos alojamentos, dormiria até no banheiro que tinha visitado! Na saída da assembléia, foram tratados como “bichos”. Estava vencida a primeira batalha! A ela segue uma nova vitória, com a criação da Escola de Química na Universidade do Paraná. Outras vitórias sucederam-se nos quatro anos do curso: a aceitação e identidade dos saboeiros na Rural, a oficialização do curso no Conselho Federal de Química, a liderança política exercida na Universidade e o marco histórico que nossa turma legou ao criar um curso.O Tuninho e o Baixo acham que a decisão da criação da Escola de Química na Rural deve ter sido no final de março, pois o Baixo foi passar 15 dias na Europa e deixou procuração com o recém conhecido Tuninho para fazer sua matrícula no dia 11/04/1966. Quando iniciaram as nossas aulas na Rural, o Baixo já estava de volta. Lembra que não havia salas definitivas para nós, porque tinham sido programadas para os cursos cujo ano letivo já haviam iniciado. A turma ficava aguardando nos corredores, vagarem salas e laboratórios para aulas, que na maioria das vezes eram no anfiteatro do P1. No início eram 100 vagas e o último admitido foi o Gentil Pedreira. O Paulo Cesar, dividiu o seu armário com ele e guardava embaixo da cama o colchão que ele dormia.O que mais o marcou o Tuninho na Rural: a excelente qualidade do campus e a vida universitária – tem certeza que foram os anos mais felizes de sua vida. O Zézinho lembra muito bem: na Rural éramos nivelados social e econômicamente, todos estavam no mesmo barco e com o mesmo objetivo. Outro ponto importante: a excelente qualidade do ensino e a dedicação dos professores, em especial do Prof. Horácio Macedo, muito bem homenageado pela turma. Criou-se espírito de companheirismo muito forte. Comparando, o Tuninho que tinha experiência anterior na escola militar, onde também há esse espírito, lembra que havia também uma série de obrigações cobradas pelos superiores, além de uma competição incentivada entre os alunos. Na Rural não havia esse ônus do militarismo, só tínhamos os bônus da convivência saudável com os colegas e a liberdade total na nossa vida de aluno. Acha que se tivéssemos ido para a ENQ não haveria esse espírito de companheirismo e que o período que passou na Rural foi uma dádiva imensurável.A afirmação e identidade da turma junto ao corpo discente iniciou-se nas quadras de esporte. A Rural tinha a nosso dispor um excelente parque esportivo e a prática foi um grande fator de desenvolvimento do espírito de corpo de nossa turma. Quando lá chegamos, não tínhamos como ser representados em nenhum esporte. Não tínhamos direito a horário para os treinos de futebol, basquete, volei e futebol de salão, nas quadras de esporte, que eram reservados para a agronomia e para a veterinária. Éramos uns peladeiros. O Ademir resolveu formar um time de futebol de salão e desafiar a agronomia. O Tuninho não jogava futebol de salão, mas foi convidado para ser o técnico. Esse jogo desafio foi vencido no último minuto em favor da agronomia, mas esse espírito guerreiro impressionou a todos. O Aranha propôs a formação de uma Associação Atlética nos moldes das outras escolas. Para isso precisavam de uma camisa com as cores que marcariam a Escola de Química. As tradicionais cores de engenharia – azul e branco – já eram da agronomia. A veterinária adotava as cores verde e branco, portanto as cores da Rural já estavam “ocupadas”. Então o Aranha, sempre criativo, propôs que fizéssemos algo novo, diferente e que as meninas de nossa turma escolhessem as cores da camisa. Fio escolhida a camisa na cor grená com gola e mangas cinza e um erlenmayer no bolso, desenhada pelo Surf-boy. O uniforme ficou bonito! Com a inspiração do Aranha e a transpiração do Tuninho, a Associação Atlética foi se formando. O Jonas, encarregado do Departamento esportivo da Rural, conseguiu junto com o coordenador do nosso curso, Prof. Leôncio, uma verba para a Escola ter uniformes e equipamentos. O Jonas foi a ele e conseguiu verba para esse fim. O Tuninho e Aranha foram “instruídos” para colar no Jonas, pressionando-o para a evitar o desvio de recursos nas compras das camisas. Assim, o acompanharam nas lojas de esporte do centro do Rio. O Jonas queria lhes empurrar um jogo velho de camisas existentes e com a verba da química e reequipar o seu departamento. Incluiu compras habituais do dia-a-dia, tais como lâmpadas, bolas, chuteiras, dardos e outros materiais gastando a verba toda. Mas, diante da insistência do Tuninho e Aranha, o Jonas devolveu alguns itens e encomendou não um, mas dois jogos de camisas. Quando saíram da loja, que estava fechado as portas, às 20:30h, disse que éramos muito “cri-cri” e que foi o único grupo de alunos que não conseguiu “empurrar” um jogo antigo de camisas.Na opinião do Tuninho, os atletas e agregados do esporte da nossa turma (o tal grupo dos 20), constituiram a massa crítica indutora na iniciativas de ações ou atividades participativas na vida da Rural e depois dela.

09 fevereiro 2006

Entrevista com o Alain

Hoje - 09/02/06 - estivemos com o Alain e conversamos bastante sobre o projeto e ele nos contou coisas de muito valor para o livro. O depoimento teve momentos emocionados como por exemplo quando ele falou do Ricardo Fevereiro, da amizade, dos tempos da escola. Teve momentos poéticos como por exemplo quando ele lembrou das noites da Rural e particularmente do aparecimento da Estrela Dalva e da lua naquele ceu azul quando voltava do P1 após a aula de frances e momentos nostalgicos quando ele falou que conhecia o Mancha desde o segundo ano ginasial, quando eles se conheceram no colégio Cruzeiro e desde entao nao deixaram de estudar juntos. Muitas outras coisas foram lembradas, curiosidades, aulas, provas estudos e até a constatação de que a Universidade hoje nao tem o cuidado que merece. Alias falamos tambem do nosso interesse, inclusive ja manifestado por outros colegas de verificar a possibilidade de ajudarmos de alguma forma a recuperaçao do esplendor da Universidade Rural.
Quem tiver alguma ideia se manifeste.
A sintese da entrevista do Alain voces vao ver brevemente neste blog. As revelações como um todo terao que aguardar o livro.
Precisamos da participaçao de voces amigos, façam seus comentarios no final deste "arttigo" clicando no item comments qua aprece ao final desta postagem. Vai abrir uma janela e voce escreve o que quiser e os outros vao ter acesso ao que voce escrever e ai a gente vai aumentando o conhecimento sobre o movimento, sobre o tempo na Rural e enriquecendo o livro que é de todos nós e que vai ser sucesso (pelo menos no que depender do entusiasmo dos entrevistados e dos entrevistadores)!!!!!!!!
Um abraço
Jose Maria

Entrevista com o Samy

Estivemos com o Samy ontem, 08/02, e conversamos bastante sobre os acontecimentos de antes, durante e pós Rural. Foi um encontro bastante interessante, pois comemos como osgauleses, conversamos como os franceses e refletimos como os gregos, os pais do pensamento. Pode-se notar portanto que a conversa foi muito proveitosa.
A síntese da entrevista estará no blog em poucos tempo, o suficiente apenas para que as outras sejam postadas, o que está demorando um pouquinho devido a mania de perfeiçao de nosso relator de entrevistas mestre Gibonus.
Hoje estaremos com o Alain Jean Pierre Farés e logo teremos condições de contar o resultado da entrevista, que desde já se afigura como portentosa, com informações importantíssimas, dada a origem de Jeremias, O Bom.
Aguardem que vem noticias já, já.
Um abraço
Jose Maria

08 fevereiro 2006


Ola amigos
Imagens da entrevista coletiva - tri entrevistados e tri entrevistadores (um deles evidentemente também tem que ser o fotógrafo e não aparece na foto).
O projeto do livro vai avançando e semana que vem estaremos falando com as mães da Telma, do Rafael e da Sandra Ribeiro, encontro este que vai se constituir em fato histórico, pois estaremos prestando uma homenagem a todos as mães e pais que tanto se esforçaram para conseguir vaga na Universidade para seus filhos e vamos também saber muitas coisas dos bastidores do movimento. Nossa homenagem a todos os pais e mães e nossos agradecimentos a Da Lize, Da Lia e Da Lilia que prontamente se dispuseram a falar conosco e tambem ao Rafael que arquitetou o encontro.
A turma era mesmo uma grande familia a começar dos pais e mães.
Um abraço
Jose Maria

07 fevereiro 2006

Complemento Entrevista do Eugênio

Eugênio falou logo depois do complemento do Celso. Notem como as informações vão sendo complementadas tudo em busca da sintonia fina, que so pode ser conseguida com um pessoal interessado:

Que bom que o pessoal está ficando empolgado com o assunto.Isto é excelente e como já se passaram muitosanos,quanto maior for o numero de participantes,mais pertoestaremos chegando dos fatos reais Seguem abaixo os meus comentários:
1)Confirmo que o Labareda estava no acampamento.
2)A reunião pode ter sido marcada como descrita. O que lhe garanto é que meu pai conhecia o Ney Braga,porque como lhe falei ele havia tirado o retrato de seu casamento.E no dia da reunião que o Ney Braga ratificou a criação do curso de Química da Universidade Rural do Brasil meu pai entregou ao Ney Braga um retrato de solteira de sua esposa.O que o emocionou muito.
3)Me lembro do Pai da Terezinha como comandante do forte Copacabana e do pai da Ana Maria em reuniões em sua casa, do Celso. Lembro-me bem da presença da mãe da Ana Maria
4)Meu pai fazia parte da comissão que marcou a reunião com o Pedro Aleixo.
5)Não me lembro deste nome Caio Martins,mas sim do Caio Mario Pereira que foi quem recebeu a primeira comissão de pais e alunos no MEC.Mais uma vez, parabéns ao Zé Maria,Antonio e Paulo César pela beleza de iniciativa e você Celso por sua contribuição.
Falem com o Marcos Belaciano,certamente ele também vai contribuir bastante.
AbraçosEugenio.H.P.Lucena F.

Complemento Entrevista do Celso

Falei com o Celso logo após a entrevista e ele me comunicou que fez uma teleconferência (o pessoal está ficando empolgado, sinal que a historia é mesmo interessante e vale a pena ser contada) com a Terezinha e a Ana Maria e eles complementaram as informações da entrevista, a saber:
1 - o Labareda estava no acampamento;
2 - Quem marcou a reunião com o Ministro Ney Braga foi o pai da Terezinha, Gal. Silvio Otavio do Espírito Santo - na época Ten. Cel. e Comandante do Forte Copacabana- a pedido do pai da Ana Maria - Cel. Kneippe, responsável pela Intendência do Exercito - seu amigo. O ministro era colega de turma e amigodo pai da Terezinha.
3 - Nesta reunião o Gal. Espírito Santo compareceu junto com a Comissão de alunos, pais e mães e o pai do Eugenio também participou .
4 - O pai do Eugenio foi quem marcou a reunião com o Ministro da Educação Pedro Aleixo, que recebeu a Comissão; o pai da Terezinha e o do Eugenio, entre outros participaram também;
5 - Os entendimentos com o Ministério da Educação continuaram posteriormente com o Secretario do Ministério, Sr. Caio Martins.

Um abraço
Jose Maria

Apelido do Moscou

Ola amigosCom a informação do Eugenio e a lembrança do Baixo de que o Jose Alberto Sabóia Holanda também esteve no acampamento do MEC, onde inclusive recebeu do colega Maranhão o apelido de Moscou; razão: estava passando um filme chamado "Os Trapalhões contra 007" que era uma parodia ao filme "Moscou contra 007" e como o Jose Sabóia Holanda vivia dizendo que era do Ceara, terra também do Renato Aragão líder dos Trapalhões o Maranhão fez a correlação Renato x Ceara x Jose Alberto Sabóia Holanda x Moscou e desde então o dito cujo só é conhecido como Moscou. Que confusão dos diabos o Maranhão fez para chegar a esse apelido.
Um abraço
Jose Maria

06 fevereiro 2006

Entrevista Coletiva

Neste sábado - 04/02 - tivemos o prazer de entrevistar um trio de ouro, pois conversamos com o Bogado, o Carneiro e o Herbert, o que nos trouxe informações valiosas sobre o movimento e o período que passamos no campus da Universidade Rural. Diversas revelaçoes interessantes serao passadas assim que o nosso relator fizer a sintese das entrevistas: aguardem!!!!!!!!
Estamos agendados com o Samy para quarta feira em uma entrevista para qual estamos nos preparando bem pois com certeza teremos muitas informaçoes relevantes.
Estamos tambem finalizando os contatos para conversar com as maes da Telma, da Sandra Ribeiro e do Rafael, o que deve acontecer nesta semana.
Finalmente agradecemos ao Carneiro pelos comentarios que fez ao texto "O olhar no extraordinário da nossa turma", que ja foram incorporados no blog.

03 fevereiro 2006

Entrevista com o Tuninho

Entrevista com o: Antonio Carlos de Miranda – Tuninho.
Data: 24/01/2006 – casa do Zé Maria. Presentes: Zé Maria, Baixo e PCXS.
Porque Engenharia Química? Era cadete da Aeronáutica, em Barbacena, MG, gostava de química, embora o professor não fosse bom, mas ele tinha facilidade na matéria e ajudava os colegas. Ele também havia vivido quase toda sua vida em contato com a química, pois seu pai era prático de manipulação de farmácia – ele até hoje tem receituário químico-farmacêutico em francês, que era utilizado por seu pai. A conjugação de vivência em laboratório e sua facilidade na química o levaram à opção para a Engenharia Química. Ele estava na Aeronáutica porque queria ser aviador, mas não tinha vocação para carreira militar. Desistiu da carreira militar, quando terminou o 2º grau em Barbacena. Fez vestibular para a ENQ em 1965, porém não passou. Trabalhou um ano como arquivista de desenhos técnicos no Departamento de Engenharia de Furnas. Seus colegas queriam que fosse cursar Engenharia Mecânica ou Elétrica de modo que pudesse continuar em Furnas. Ele não conseguia ler os desenhos, não estava satisfeito com seu trabalho e continuava querendo ser Engenheiro Químico. Pediu as contas em Furnas e passou a fazer o que gostava: estudar. Matriculou-se no curso Vetor, preparando-se para vestibular e prestou vestibular apenas para a ENQ.
Quando foi verificar o resultado do vestibular havia várias pessoas junto ao quadro de avisos. Por não ser alto, tinha dificuldade de verificar a lista. Mas a seu lado tinha um cara grandalhão – Samy - que viu que ele estava classificado logo depois dele, mas que ambos eram excedentes, isto é estavam aprovados mas sem vagas. Mas foi logo dizendo que “ficasse tranqüilo, pois havia um movimento se formando para forçar o governo a abrir novas vagas para aproveitar os excedentes”. O Samy pediu seu telefone para contato. Em menos de uma semana foi chamado a comparecer ao pátio do Ministério da Educação. Lá chegando encontrou o Samy, o Mario Newton, o Macaco e sua mãe, o Eugênio e seu pai, a mãe da Telma e a mãe da Sandra Ribeiro. As mães mantinham os ânimos elevados e as esperanças acesas. Passou a freqüentar o pátio do MEC. Nesta ocasião aconteceram reuniões na casa do Raja Gabaglia e talvez na casa do Victor Catramby. Nessas reuniões o Maranhão já despontava com liderança lúcida e conciliadora, mas também havia propostas de radicalização, tais como atirar pedras e invadir o gabinete do Ministro da Educação, por parte do Guerra... Mas a liderança de fato era exercida pelo pai do Eugênio, com a participação ativa das mães da Telma e Sandra. Apesar de haverem filhos de coronéis em nossa turma (Terezinha Espírito Santo, Ana Maria Kneip e José Marcos Mascarenhas), não soube de nenhuma manifestação partindo dessas pessoas em prol de abertura de mais vagas ou de nova escola de química.
Após um mês de concentrações no pátio do MEC, constatou-se que essa concentração não causava impacto à população, pois os alunos ficavam “perdidos” na multidão do pátio, local de grande circulação de pedestres. Então o pai do Eugênio, com sua sempre entusiástica motivação, propôs que acampassem lá mesmo. Alguém conseguiu barracas de campanha da PM. Começaram com uma barraca e com faixas reivindicando vagas. No início a barraca servia de “sede” do comitê e ela era montada e desmontada todos os dias. A barraca tornou-se a “bandeira” do movimento. Pediram que o Tuninho levasse paus para as faixas. Conseguiram mais barracas e organizaram rodízio de pessoas para que as barracas ficassem permanentemente montadas. Neste rodízio o Tuninho era da “turma da noite”, que incluíam o Samy, o Baixo, o Maranhão, o Moscou e o Guerra. O Samy levou o baralho e o Baixo o violão... As meninas ficavam até tarde, mas não à noite. Eram 5 barracas. Lembra que sempre havia alguém do movimento falando nas rádios e TVs, inclusive no programa do Chacrinha, o mais popular programa de TV da época. Mas ir a rádios e TVs não era a função do Tuninho - a dele era ficar na turma da noite no acampamento. Isto é, havia uma organização, com funções predeterminadas e estratégias de ação. As notícias e fotos começaram a nos jornais. Isso incomodava. O ministério pediu que retirassem as barracas, fato que não podiam fazer, pois perderiam a visibilidade. O movimento começava a fazer efeito!
Tinha sempre cerca de 20 pessoas no acampamento. Alguns dos mais assíduos, além dos já citados que o Tuninho lembra: Gentil, Celso Colombo, Bala, Diana, Sandra Ribeiro, Alexandre. Dois dias após o pedido de retirada das barracas, numa madrugada de domingo, às 4h, a PM invade o acampamento, derruba algumas barracas e acorda a rapaziada. Alguém avisa para não quebrar as barracas, pois elas eram da própria PM. Os PM passaram a agir com mais educação e até ajudaram a desmontar as barracas. Ficharam cada um dos acampados e os levou, um a um, às suas casas. Essa ação foi coordenada por um tenente e é de se estranhar aquela ação “suave” da PM, como se o pelotão estivesse orientado a agir com moderação com aqueles rapazes - terá sido o “dedo” de algum coronel para amenizar os colegas de sua(eu) filha(o)?
A primeira hipótese de aproveitamento dos excedentes era na Universidade Federal do Paraná. Por outro lado, souberam da grande possibilidade de abertura de Escola de Química na Rural e resolveram formar uma comissão e ir até lá para se reunir com pessoal daquela Universidade.
Reunião na Rural: Celso, Samy, Bala, Ronald, Eugênio, Maranhão, Macaco e o Tuninho. Não sabia chegar na Rural e ficaram perdidos na Av. Brasil, na altura de Guadalupe. Chegando no PI, na Rural, foram mal recebidos pelos alunos, que estavam reunidos, em grande número na entrada e corredor que dá acesso ao auditório da Rural. Passaram por verdadeiro “corredor polonês” e se viram acuados. O Tuninho achou que iriam passar por uma sessão de trote. O auditório estava cheio, mas alguém os levou para a primeira fileira, onde havia lugares reservados para eles. Sentados à mesa, no palco, estavam os Prof. Alvahido, o Reitor Paulo Dacorso e o Paulinho, Presidente do Diretório de Alunos da Rural. Este atacava o Prof. Alvahido questionando-o porque a Universidade queria abrir curso de química e não abria o curso de Zootecnia. O Prof. Alvahido expôs que historicamente o estudo de química no Brasil tinha sido iniciado na Escola de Agronomia e que pensava no futuro da Universidade Rural e retornou a palavra ao Paulinho. Este, por sua vez, deu boas vindas aos novos alunos e convidou alguém da comissão que falasse em nome dos demais. O Ronald tomou a palavra agradecendo e disse que não iria tirar vaga de ninguém e disse que dormiria até no banheiro! Na sida já forma tratados como “bichos”...
Segundo o Tuninho, a decisão sobre a abertura da Escola de Química na Rural de ter sido no final de março, pois o Baixo foi passar 15 dias na Europa e deixou procuração com o Tuninho para fazer sua matricula e no dia 11/04/1966, quando iniciaram as nossas aulas na Rural, o Baixo já estava de volta. Lembra que não havia salas definitivas para nós, pois as salas tinham sido programadas para os cursos cujo ano letivo já haviam iniciado. Muitas vezes ficávamos aguardando nos corredores para que vagassem salas de aula. No início eram 100 vagas e o último admitido foi o Gentil Pedreira. Eu, Paulo Cesar, dividi meu armário com ele e, na falta de cama, durante alguns dias, ele dormia num colchão, que era guardada embaixo de minha cama.
O que mais o marcou na Rural: as instalações, a boa qualidade do campus – considera que foram alguns dos anos mais felizes de sua vida. O Zezinho lembra muito bem: na Rural éramos todos nivelados por cima. Outro ponto importante: a dedicação dos professores e em especial do Prof. Horácio Macedo.
O espírito de companheirismo muito forte – ele tinha vindo da vida militar, onde há esse espírito, porém, nós tínhamos isso sem os ônus do militarismo. Tínhamos os bônus, sem os ônus. Acha que se tivéssemos ido para a ENQ não teríamos vivido esse espírito de companheirismo e a opção pela Rural foi ótima.
As quadras de esporte também era outro ponto de destaque, pois a Rural tinha a nosso dispor um excelente parque esportivo. O esporte era um grande fator de desenvolvimento do espírito de corpo de nossa turma. Quando lá chegamos não tínhamos nenhum time, em nenhum esporte, não éramos representados em nada. Não tínhamos nem horário nas quadras de esporte, que eram primeiro para a agronomia e segundo para a veterinária. Alguns gostavam de bater bola e a partir desses peladeiros, o Ademir resolveu formar um time de futebol de salão e desafiar a agronomia. O Tuninho não jogava futebol de salão, mas foi convidado para ser o técnico. Esse jogo desafio foi vencido no último minuto em favor da agronomia, mas esse espírito guerreiro causou boa impressão a todos. O Aranha propôs a formação de uma Associação Atlética. Para isso precisavam de camisa com as cores que marcariam a Química. As tradicionais cores de cursos de engenharia – azul e branco – já eram da agronomia. Por sua vez a veterinária adotava as cores verde e branco, portanto as cores da Rural já estavam “ocupadas”. Então o Aranha, sempre criativo, propôs que fizéssemos algo novo, diferente e que as meninas de nossa turma escolhessem as cores da camisa. Ficou sendo grená com gola e mangas cinza e um erlenmayer no bolso. O uniforme ficou bonito! Assim, com a inspiração do Aranha e a transpiração do Tuninho, a Associação Atlética foi se formando. O Jonas, encarregado do Departamento esportivo da Rural, considerou que a nova Escola deveria ter verba para uniformes e equipamentos. A nossa Escola ainda não tinha um representante oficial junto à reitoria, mas éramos representados pelo Prof. Leôncio. O Jonas foi a ele e conseguiu verba para esse fim. O Tuninho e Aranha foram “instruídos” para colar no Jonas, pressionando-o para a compra das camisas. Assim o acompanharam nas lojas de esporte do centro do Rio. O Jonas queria lhes empurrar qualquer jogo velho de camisas e com a verba da química reformar seu departamento incluindo compras habituais do dia-a-dia, tais como lâmpadas, bolas, chuteiras e outros. Mas diante da insistência do Tuninho e Aranha o Jonas devolveu alguns itens e encomendou não um, mas dois jogos de camisas e saíram da loja, que já havia fechado as portas, às 20:30h, dizendo que foi o único grupo de alunos que o pressionou a ponto de não conseguir “empurrar” um jogo antigo de camisas.

02 fevereiro 2006

Entrevistas com Eugênio e Celso

Esta é apenas uma sintese, existem muito mais informações e revelações interessantes, voces nao perdem por esperar o livro:

Entrevista com Eugênio Lucena Filho.
Data: 07/11/2005. Local: Via Parque – Barra da Tijuca – Rio
Entrevistadores: JMM, AB, PCXS.
Por que resolveu ser engenheiro químico?
- Embora o pai fosse famoso fotógrafo social, talvez o melhor do Rio naquela época, o Eugênio não se interessava pelo laboratório fotográfico do pai. Mas ele gostava de matemática, porém sem nenhuma afinidade com desenho e muito menos com a geometria descritiva. Uma carreira de engenharia sem desenho? A engenharia química era uma opção viável.
Como soube do movimento dos excedentes para a abertura de novas vagas?
Através de ligação do Celso Colombo, a quem não conhecia. A princípio não estava com vontade de aderir ao movimento, pois achava que não iria dar em nada. Mas por insistência de sua mãe, Da. Ignes de Souza Lucena foi à reunião na Escola Nacional de Química (ENQ). Da. Ignes era a única mãe presente e, com espírito prático, a partir da lista dos excedentes que a ENQ forneceu, começou a organizar a chamada aos alunos. O Eugênio lembra que nesta reunião já encontrou o Bambu e o Maranhão. Nessa reunião o Adilson, irmão do Ademir, juntou o pessoal que havia feito o curso pré-vestibular da ENQ, onde ele era professor.
Na segunda reunião na ENQ, além da presença da D. Ignes estava também a Da. Lisa, mãe da Telma. Nessa reunião surgiu um documento assinado pelo Sr. Schuab, Capitão dos Bombeiros, advogado e químico, onde, sem conotação política, o documento falava que os excedentes tinham direito a vagas, pois haviam sido aprovados e queriam estudar. Nessa reunião se destacava as lideranças do Ronaldo Guedes Santos e do Alberto Mattos Maia, o Maranhão. Nessa 2ª reunião o Eugênio lembra também da presença dos seguintes alunos: José Maria Lyra, Balaciano, Salustiano, Bambu.
Os excedentes eram estimulados pelos alunos da ENQ, pois na turma de 1963, última turma do governo de João Goulart, houveram excedentes que foram aproveitados.
Por esta ocasião houve entrevista na TV Globo – gravada em Auricon no Jardim Botânico, entrevista arrajada pelo irmão do Eugênio, que conhecia o repórter da TV Globo.
O manifesto do Capitão Shuab, embora bem escrito, era muito longo e, a pedido do Sr. Eugênio Lucena, pai do Eugênio, seu vizinho, o jornalista Carlos José de Assis Ribeiro, resumiu o texto e o transformou as cerca de 20 páginas originais em um texto mais palatável de 3 ou 4 páginas. De posse deste documento sucinto, o Eugênio o levou a seu amigo Alberto Carneiro da Cunha, que por sua vez o encaminhou a seu primo Luiz Fernando, o qual era muito amigo de Caio Mario Pereira, secretário do Dr. Pedro Aleixo, Ministro da Educação. A partir daí conseguiu audiência com o Ministro, onde foi aventada a hipótese de abertura de vagas na Universidade Rural do Brasil, já que na ENQ não havia meios físicos da absorver os excedentes. O avô do Eugênio escreveu carta ao jurista e pensador católico Dr. Gustavo Corção, procurando sensibiliza-lo para o problema dos excedentes, lembrando-o que havia jurisprudência da época do governo Goulart.
O pai do Eugênio, percebendo que havia um jogo de empurra entre os Ministérios, ele falou da necessidade de pressionar o governo. Como os alunos já tinham o hábito de ficar no pátio do Ministério da Educação, hoje Palácio Capanema, daí para o acampamento foi um pulo. Durante o acampamento houve um episódio engraçado: o acampamento foi “invadido” pelas bichas da Cinelândia e um deles se chamava Help.
O pai do Eugênio havia feito as fotografias sociais do casamento do Ministro Nei Braga e este lembrava do fato, quando da entrega da placa de agradecimento pela abertura do Curso de Química na Universidades Rural, àquela época afeta ao Ministério da Agricultura.


Entrevista com Celso Colombo Filho
Data: 22/11/2005. Local: Pizzaria Raul – Barra da Tijuca – Rio de Janeiro.
Entrevistadores: JMM, AB, PCXS.
Por que resolveu ser engenheiro químico?
Com 14 anos resolveu trabalhar na fábrica de biscoitos da família, a famosa Piraquê, sendo designado para o laboratório de análises químicas. Lá, foi orientado pelo químico Gunther Pappi que lhe despertou o interesse pela química. Celso trabalhou mais de um ano no laboratório, onde analisava matérias primas e produtos acabados.
Foi estudante do Externato S. José e depois do Curso Bahiense. Seu pai lhe prometera um Karmann Ghia, caso fosse aprovado no vestibular. Prestou vestibular para engenharia operacional e para engenharia química. Passou na engenharia operacional, mas seu pai disse que “essa não estava no nosso trato”, portanto a que valia era o vestibular da ENQ.
Quando foi ver a lista de aprovação da ENQ e viu que seu nome não estava entre os 100 primeiros exclamou: “perdi meu Karmann Ghia!”. A moça a sua frente, Ana Maria Kneip, começou a rir. A seu lado verificando a lista, além da Ana estavam João Lombarinhas Alcure e Alexandre Peres Bado. O Celso, não conformado com a perda de seu Karmann Ghia, começou a incitar seus colegas para a formação de um movimento para a abertura de mais vagas. O Alcuri propôs reunião em sua casa, um castelo na subida para o Alto da Boa Vista e aí começou o movimento de inclusão dos aprovados, que ainda não eram chamados de excedentes.
Como primeira resolução foi decidida que precisavam ter acesso à lista dos aprovados e a dividiriam entre eles para chamar um por um dos aprovados. Da parte da lista que coube ao Celso, a primeira pessoa a responder ao telefonema foi o Alberto Macaquinho. Depois aderiram o Eugênio, Ronald e o Sammy. As reuniões foram se estendendo pelas casas dos diversos envolvidos, como na casa da Telma, na do Bala, na do Catrambi e outras. Desde essas primeiras reuniões quem mais o impressionou foi o Ronald, por sua facilidade de expressão e poder de síntese.
Consultaram professores da ENQ, que lhes disseram que a Universidade Rural tinha interesse em abrir curso de química e dispunha de excelentes espaços e equipamentos para tanto. De posse desta informação, o Celso foi, no fusca azul de seu pai à Rural, levando o Ronald, Maranhão, Eugênio e o Bala. Lá falaram com o Prof. Alvahido, que era o catedrático da cadeira de química. Por recomendação do Prof. Alvahido, foram ao Ministro da Agricultura Nei Braga, onde mostraram suas reivindicações quanto à abertura de vagas na Rural para os excedentes e disseram que iriam iniciar um movimento pacífico nesse sentido.
Escreviam manifestos e os enviavam às redações dos jornais, foram a programas de televisão e fizeram o acampamento no pátio do Ministério da Educação.
O resultado foi a abertura do curso de química na Universidade Rural, com vagas para 100 alunos. Havia alojamento para os 50 primeiros e os demais tiveram que procurar alugar quartos ou casas nas cidades próximas, já que a Rural é longe de tudo. O Sr. Celso pai, alugou uma casa em Campo Grande para seu filho, a qual a dividiu com o Maranhão, Surf Boy, Ronald, Aranha e Macaco. Ah, o Karmann Ghia foi comprado na Auto Modelo pago em doze promissórias tiradas da mesada do Celso...
Pessoas que o Celso lembra no acampamento: Sammy, Moscou, Surf, Terezinha, Ana Maria, Telma, Toninho, Eugênio, Macaco, Alexandre, Maranhão, Pio, Ronaldo, Baixo, Diana, Bala, Ronald, Catrambi, Érico, Jcchok, Silvia, Mario Newton, Rafael, além dele próprio.
O Baile dos Calouros, no Clube Monte Líbano foi organizado por ele, Surf, Ronald, Aranha, Ana Maria. O Celso falou com o MPB4. Deu um grande prejuízo...

O dia a dia do projeto

O projeto do livro está sendo desenvolvido e varias entrevistas interessantes ja foram feita e outras estao agendadas.
O interesse das pessoas em contar a historia desse movimento é contagiante e os autores estao entusiasmados.
As historias que cada um tem para contar compoem um painel multi facetado que vai se completando com os depoimentos de cada um; a cada momento um fato novo, uma lembrança interessante, uma informaçao insuspeitada. Realmente por mais otimistas que fossemos, por mais interessados e conhecedores da historia, não imaginávamos que fosse de tanto dinamismo, de tanta visão e feita com ttanto despreendimento e dedicaçao.
Sem duvida vai sair uma obra interessante que vai fazer cada um ter a ideia da importancia do movimento e de cada um dos que fizeram essa historia.
A partir da semana que vem estaremos publicando periodicamente a síntese do depoimento de cada um e divulgando a agenda de entrevistas.
Ja foram entrevistados o Celso Colombo, o Eugenio, o Belaciano, o Ademir, o Tuninho e o Aranha.
Estao agendados o Rafael, o Ronald e o Alain.
Ja fizemos contato com a Da. Alice mãe da Telma, com a Da Lilia mãe da Sandra Ribeiro e com a Da Lilia, mãe do Rafael; a entrevista deve rolar na semana que vem.
As entrevistas com os professores estão sendo agendadas: é a Fase II da pesquisa de campo.
Mandem comentarios, informações, contribuam, pois a historia é de todos.
Um abraço

O olhar no extraordinário da nossa turma

Nos últimos tempos venho pensando muito na historia da nossa turma e tem me impressionado a quantidade de desafios que enfrentamos, as lutas que empreendemos e as dificuldades que ultrapassamos, todos nós bastante jovens, com pouca experiência de vida e sem grandes historias de realizações pessoais.

A verdade é que muitos destes desafios teriam desanimado muitas pessoas e ate mesmo nem teriam sido consideradas as possibilidades de enfrenta-los. Como exemplo deve ser citado que o comportamento geral e normal do jovem que não passava no vestibular ou não lograva classificação era fazer novo vestibular, fazer outra faculdade, dirigir seus esforços para outras atividades e até mesmo desistir da carreira universitária.

A nossa turma confrontada com a não classificação na Escola nacional de Química para a carreira de Engenheiro Químico decidiu pelo não usual, enxergou na não classificação uma agressão aos seus direitos e resolveu enfrentar a situação, exigindo seus direitos e não economizando esforços para conseguir que eles fossem respeitados.

A luta não foi somente essa, pois passou pela criação de uma Faculdade de Química –com oferta de 100 vagas - na Universidade Rural do Brasil que era da área do Ministério da Agricultura e não do Ministério da Educação como a Escola Nacional de Químíca e passou também pela abertura de 100 vagas na Escola de Química da Universidade do Paraná com 60 vagas para excedentes do Rio de Janeiro e 40 para excedentes da própria Escola do Paraná.

Passou pelo trabalho constante na Universidade Rural para aparelhar seus laboratórios e salas de aulas para atender ao novo curso; pelo relacionamento destes 100 jovens de origens distintas, e pelo entendimento necessário com os alunos de outros cursos da Rural, principalmente da Agronomia e da Veterinária, todos eles com perfis inteiramente diferentes dos que estavam entrando na Escola de Química recém criada.

É absolutamente necessário enfatizar e agradecer a dedicação e empenho dos nossos professores - que podemos dizer sem nenhuma soberba que eram a nata docente do país - quase todos da ENQ, que se deslocavam diariamente do Rio para o km 47 da antiga Rio - São Paulo onde ficava a Rural, e não poupavam esforçoes para nos oferecer as melhores condições de ensino, investindo tempo e conhecimento em nossa formação.

Os estudantes de Agronomia e Veterinária eram, em sua maioria, oriundos da zona rural do país, tinham hábitos e costumes bastante diferentes dos excedentes da ENQ e o relacionamento com eles era e foi um exercício complexo de habilidade e flexibilidade, sem ofender suas origens nem deixar de aprender o que tinha para ser aprendido. Um exercício de sabedoria, exercida mesmo sem saber sua gênese.

Um relacionamento com os colegas de Curitiba e os não colegas da Universidade enfrentando todas as dificuldades, como chegar em grupo a Curitiba, cidade que a maioria nem conhecia, com forte ascendência da cultura alemã, sem conhecimento das pessoas e praticamente nenhum na cidade, sem lugar prévio para ficar, pois cada um, ao chegar teve que procurar alojamento na cidade e em seguida fazer a vida cidade e na Faculdade, vivendo com pessoas que tinham cultura inteiramente diferente e assim mesmo continuar e se fazer respeitar.

O que levou jovens não ter receios de reivindicar junto as autoridades muitas delas militares, em um regime militar onde o normal era aceitar as ordens e procedimentos ditados pelo poder centralizador de um regime de força, e buscar seu espaço? O que levou a um desprendimento sem par ao fazer coisas impensadas até então, como buscar apoio junto aos familiares, formar parcerias impensadas, levantar dados e informações tão diversificadas como, por exemplo: quais os quantitativos de estudantes em salas de aulas de engenharia; histórico dos vestibulares passados na ENQ; custos de manutenção de alunos em cursos superiores similares aquele para o qual tinham prestado vestibular; locais na cidade onde poderiam ser instaladas salas de aula; elaboração de manifesto com grande poder de informação técnica e enfoque político adequado às condições e as necessidades; tudo isso com um poder de organização e timing invejáveis, como os resultados comprovaram.

A reflexão sobre o movimento feita agora por quem o acompanhou totalmente, refinada pelo tempo decorrido e apurada em função do olhar apurado feito em cima da historia acontecida, com levantamento dos dados e análise das informações leva a uma constatação extremamente interessante dos fatos e dos resultados obtidos, como pode ser observado a partir das seguintes constatações, todas elas reais e comprovadas:

1- O movimento partiu do nada, não tinha nenhum ponto de apoio e nenhuma alavanca para se movimentar; o que teve foi criado pelos atores;
2- O momentum da luta foi muito intenso e muito rápido;
3- A integração com pais / mães foi muito intensa;
4- Os participantes acreditavam plenamente na luta;
5- A participação foi intensa;
6- A dedicação foi total;
7- O desprendimento dos vestibulandos foi notável: jovens falando com ministros sem receios (e ministro naquela época tinha uma investidura de autoridade muito forte); jovens viajando sozinhos para encontrar e falar com ministro em Brasília, em avião de pára-quedista com passagem conseguida por uma das mães e voltando de ônibus (caso do Rafael) e para Curitiba para falar com o Reitor da Universidade do Paraná (caso do Ronaldo que foi e voltou de ônibus para Paranaguá encontrar seu pai e depois falar com o Reitor);
8- A criatividade em conseguir uma bandeira e cristalizar sua imagem na mídia, com a efetivação do acampamento no pátio do MEC, que ajudou a divulgar o movimento: estratégia política e tática de marketing;
9- A eficácia e efetividade do movimento:
a. Desencadeado em início de fevereiro em março estava criado o Curso de Engenharia Química na Universidade Rural – as aulas começaram em março mesmo – já com currículo aprovado e professores definidos (diga-se de passagem, currículo elogiado e professores da mais alta qualificação);
b. As aulas na Escola de Química do Paraná começaram em junho, praticamente dando vida a uma Escola recém criada e que se ressentia da falta de alunos e por que não dizer de uma certa irreverência que ajudaram a flexibilizar o curso e os próprios estudantes locais;

Mais interessante é a verificação de que não se estava elaborando nem executando um projeto de entrar na faculdade, o que foi conseguido com a criação do curso na Rural. A análise dos tempos seguintes nos permite afirmar que estava em curso na verdade o início de um processo muito mais amplo e abrangente de modificação profunda na relação estudante x sistema de ensino, que envolvia entre outros:
1- Uma nova forma de relacionamento dos alunos com os alunos de outros cursos, dos alunos com os professores e dos alunos com os administradores universitários;
2- Uma relação de profundo respeito com o pessoal administrativo da Universidade;
3- Um interesse profundo pelas questões conceituais e práticas da Escola, refletida em atitudes de construção de bancadas de laboratórios até luta pela participação no Conselho Universitário da URB e pelo reconhecimento do curso no Ministério da Educação;
4- Uma participação esportiva em todos os segmentos existentes na Rural;
5- Uma participação efetiva na área cultural com alavancagem do cine-clube e otimização do uso do cine-teatro-auditório na Rural – no prédio principal da Universidade, o P1 existia um cinema onde, de 3ª a 6ª feira eram exibidos filmes comerciais para o publico da região, estudante ou não e segunda feira era dia sem uso; aproveitando este vazio e aproveitando também que a 2ª feira era dia de pouco movimento nos cinemas do Rio de Janeiro e em que comumente as companhias teatrais descansavam, aproveitou-se para exibição neste dia filmes de arte e apresentação de peças teatrais – neste cine teatro foi apresentada entre outras a peça Dois Perdidos Numa Noite Suja do dramaturgo Plínio Marcos, com o próprio e Fauzi Arapi, dupla que protagonizou a melhor performance da peça;
6- Uma participação política, como grupo, de certa forma modesta, mas sempre pautada pelo equilíbrio; ainda assim devem ser citados a criação e funcionamento do Diretório Estudantil da Escola de Química e da Associação Atlética; considerando a participação individual a contribuição foi brilhante, pois um de seus componentes (o Ademir Santiago) chegou a ser Presidente do DCE , isso em 1968, dois anos após a criação do curso;

Nessa luta continuada chama atenção o trabalho efetuado para o reconhecimento do curso junto ao Ministério da Educação, processo reconhecidamente lento e que todos os que tinham experiência no assunto diziam ser praticamente impossível ser concluído em menos de 05 anos. Pois os inexperientes conseguiram levar o processo a bom termo em menos de 01 ano, um feito muito festejado por todos na Rural, pois alem de garantir um diploma reconhecido pelo ministério da Educação, como qualquer outro de qualquer curso ainda dava a Universidade Rural uma nova dimensão no cenário nacional.

Esse processo teve continuidade profícua, quando se sabe que alavancou a passagem da Universidade, então U. Rural do Brasil do âmbito do Ministério da Agricultura para o Ministério da Educação, aumentando a amplitude da Universidade, otimizando o acesso a recursos financeiros de informação e colocando-a no mesmo patamar das demais universidades brasileiras, potencializando a criação de outros e diferenciados cursos possíveis com a nova investidura da universidade. Essa mudança de configuração estrutural aconteceu durante a passagem da nossa turma pela Rural.

Tantas conquistas, em segmentos os mais distintos, de aspecto prático, de cunho social com ênfase no relacionamento interpessoal, nas áreas culturais, esportivas e políticas, em tão pouco tempo, configuram uma atividade transformadora e com eficácia, uma atitude empreendedora. Mostram que o grupo não se conformava nem queria apenas seguir rumos do conforto profissional que era praticamente garantido naquela época com a conclusão do curso. Queria mais, estava indo contra o status quo vigente, estava lutando contra o establishment, queria mais: fazer seus próprios caminhos, criar e continuar a ousar.

Esse espírito teve prosseguimento no pós Universidade pois a turma continuou se reunindo em almoços, eventos maiores a cada cinco anos e tendo uma base de sustentaçao na manutenção da base de dados constantemente atualizada e disponibilizada para os interessados e a troca de informções entre os colegas. Isso sem dúvida realça o espírito de corpo da turma, favorece a adesão e mantem a união.

Os fatos são inquestionáveis, mas o que sempre me chamou atenção foi o porque desse furor empreendedor naquela turma, o que levou aquele grupo a ser o que foi, a ser o que é, uma vez que continuam se encontrando com uma participação de cerca de 40 a 50% da turma em encontros qüinqüenais com seus familiares e em grupos menores em almoços até mesmo mensais?

Muitas coisas têm sido levantadas para explicar a luta, a união, o processo criativo e transformador, como por exemplo:
· Ter contado com um grupo competente e interessado de pais e mães, com alta capacidade aglutinadora e de organização ajudou a dar forma e estruturar o movimento;
· O fato de a turma ter tido sempre que lutar para conseguir seus propósitos exacerbou o espírito corporativo;
· A entrada em grupo em um ambiente onde as pessoas tinham outros hábitos e costumes e era de certa forma hostil como pela situação que se apresentava – um grupo de alunos para disputar recursos financeiros e materiais que não estavam sobrando para os que ali estavam - deveria mesmo ser obrigou ao fortalecimento da união como forma de defesa e conservação;
· Como na época os estudantes formavam turma e seguiam juntos a cada ano fazendo as mesmas matérias –ainda não tinha sido adotada o sistema de créditos que desfez as turmas, dissolveu os relacionamentos continuados e pulverizou o companheirismo – juntava as pessoas e promovia a agregação dos colegas, fortalecendo a amizade;
· O sistema de Universidade, configurando um verdadeiro campus universitário, onde os alunos ficavam juntos nas salas de aulas, no refeitório, nos momentos de lazer, e até dormiam e estudavam nos mesmos quartos, criava uma situação de favorecimento ao fortalecimento do espírito de equipe;
· O próprio ambiente da Universidade Rural, com seus campos gramados e arborizados, seus lagos plácidos, seus pavilhões de belas construções de estilo colonial que acolhiam com conforto e cuidado seus passantes, tudo no campus passava uma tranqüilidade ao feliz habitante e facilitava a integração do homem com a natureza, propiciando uma paz de espírito e uma vontade de se relacionar com harmonia com os companheiros e com o meio ambiente.

Tudo isso explica a união e o fortalecimento dos laços de amizade e até mesmo mostra fatores que ajudaram a conseguir o atingimento dos objetivos, mas existe uma anterioridade que necessita ser buscada, entendida e explicitada: o porque dessa turma ter desenvolvido e bem esse processo já que nenhum deles tinha conhecimento nem experiência neste assunto que deveria envolver necessariamente: conhecimento, vivência, capacitação, planejamento, programação, experiência para lidar com questões complexas que geralmente aparecem no desenrolar de processos como este capacidade de execução, controle e acompanhamento (características comumente desejadas e procuradas em profissionais de nível superior com algum tempo de vivencia da profissão), o que nenhum deles tinha ou sabia que tinha, mas que certamente nunca havia sido explicitado com tanta ênfase?

Tenho defendido sempre que a turma era especial nas suas individualidades e principalmente no seu conjunto, porque sem uma carga grande de características peculiares, diferenciadas do comum, de pensamento não conformado com a rotina, com uma visão do extraordinário, não seria possível a concretização de objetivos super audaciosos como aqueles do movimento e mais ainda na manutenção da luta durante os anos da Faculdade e continuados nas reuniões qüinqüenais com participação de mais de 50% da turma e reuniões mais freqüentes como os almoços mensais que chegam a reunir 20 colegas de turma. A turma era especial sem dúvida alguma, mas me faltava o embasamento técnico cientifico do modus comportamental dos integrantes da turma, no plano individual e do coletivo que explicasse e definisse esse extraordinário, esse especial de que eu tinha certeza, aquele grupo de revestia.

Na seqüência das entrevistas que vimos fazendo para formar a base de informações do livro Sua Excelência o Excedente, chegamos ao contato com o Aranha, que hoje é o Diretor do Instituto Gênesis, órgão da PUC-Rio que faz com competência a ponte estudante mercado de trabalho, despertando, incentivando e promovendo o empreendedorismo destes jovens, inclusive operando a Incubadora de Empresas e viabilizando a formação de Empresas Juniores, e que teve um papel importante na historia da nossa turma e da Escola de Química da Rural.

Durante a entrevista ele fez um comentário que bateu direto na gente – os entrevistadores – sobre o melhor aproveitamento de extratos das turmas que se prestam melhor ao empreendedorismo. Ele comentou que historicamente em cada turma existe um extrato composto pelos alunos que tem melhores resultados acadêmicos, que são os que se aplicam mais e procuram as melhores notas; em seguida vem um extrato composto daqueles alunos que são competentes, aplicados, mas nem tanto e que não se preocupam tanto com notas, mas tem conhecimento do assunto. A terceira faixa é dos alunos que nem se aplicam, nem tem bons resultados nem se preocupam com isso.

Segundo ele a primeira faixa – dos alunos com melhores notas – é a daqueles que se preparam para seguir e fazer bem feito o que está e vem sendo feito e, portanto são excelentes profissionais, excelentes gestores e geralmente fadados a uma carreira de sucesso no mundo profissional / comercial estabelecido. São assim excelentes fazedores e gestores.

A segunda faixa é a daqueles que anseiam por mudanças e por serem assim não deixam de seguir os estudos dentro dos parâmetros estabelecidos, mas não se deixam dominar por estes paradigmas, e reservam parte das suas energias para sonhar, pensar em fazer algo novo. Estão na faixa dos que não se conformam com o estabelecido e ficam a pensar – pensar, o bem mais precioso do processo do conhecimento – em como fazer diferente, como fazer melhor. Eles são os modificadores, os transformadores, os construtores e é nessa faixa que se concentra a busca e é maior o interesse pelo trabalho no Instituto Gênesis. Nesta faixa são procurados os empreendedores do futuro.

Esse comentário – afirmação do Aranha como que explica e qualifica meu pensamento inicial sobre a potencialidade da nossa turma. Nos não fizemos parte do primeiro faixa dos vestibulandos, visto que este extrato se classificou para a ENQ e possivelmente era a faixa / extrato dos fazedores / gestores.

Nossa turma estava toda ela contida na segunda faixa / extrato e portanto inserida no que se poderia chamar de modificadores / transformadores o que explica a profusão atividades nas quais esteve e está sempre envolvida seja através de suas individualidades seja através do coletivo que se revelou no desencadeamento e execução do processo que culminou na criação do Curso de Química da Rural, no reconhecimento do curso junto ao Ministério da Educação, na ajuda constante para viabilização da escola, na interferência nos esportes e nas artes, no fortalecimento do relacionamento pessoal dos alunos da Rural e na vontade demonstrada pelos seus componentes de fazer mais, de participar mesmo estando alguns com seus projetos profissionais concluídos e suas vidas estabilizadas. Mesmo assim se interessam pela vida e se interessam pelos outros.

Essa é uma explicação com fundamentos práticos concretos e que pode e deve ser trabalhada com levantamento e análise de dados junto a turma que entrou na ENQ naquele mesmo vestibular e também junto as três turmas subseqüentes a nossa já que estas tiveram as mesmas condições que a nossa turma teve na Rural.

O fato existe – realizações expressivas com alta dose de eficácia – a anterioridade que explica e justifica o resultado existe e aponta para uma existência do extraordinário em cada um e no todo e a explicação parece ser essa avançada pelo Aranha.

Falta embasar cientificamente essa explicação e até que isso seja feito – o que pode ser conseguido no desenrolar do projeto do livro, o que inclusive agregará um valor enorme à obra – pode-se dizer:

CQD

01 fevereiro 2006

Momento atual

O processo de elaboração do livro sobre a luta da nossa turma - EQURB 1969 - está em pleno desenvolvimento pois contar essa história passou a ser uma necessidade, visto que o movimento desencadeado pelos excedentes da Escola nacional de Química do vestibular de 1966 configura uma bela pagina da história estudantil no Brasil, principalmente pelos resultados alcançados e pela forma pacífica como foi conduzida.
A nossa turma confrontada com a não classificação na Escola nacional de Química para a carreira de Engenheiro Químico, decidiu pelo não usual, enxergou na não classificação uma agressão aos seus direitos e resolveu enfrentar a situação de frente, exigindo seus direitos e não economizando esforços para conseguir que seus direitos fossem respeitados.
Passou pelo trabalho constante na Universidade Rural para aparelhar seus laboratórios e salas de aulas para atender ao novo curso; passou pelo relacionamento destes 100 jovens de origens distintas e pelo entendimento necessário com os alunos de outros cursos da Rural, principalmente da Agronomia e da Veterinária, todos eles com perfis inteiramente diferentes dos que estavam entrando na Escola de Química recém aberta.
A reflexão sobre o movimento feita agora por quem acompanhou todo o movimento, refinada pelo tempo decorrido e apurada em função do olhar apurado feito em cima da historia acontecida, com levantamento dos dados e análise das informações leva a uma constatação extremamente interessante dos fatos e dos resultados obtidos, como se pode observar a partir das seguintes constatações, todas elas reais e comprovadas:
O movimento saiu do nada, conseguiu criar um Curso de Química na Universidade Rural com uma turma composta de 100 alunos e abriu 60 vagas na Escola de Química na Universidade Federal do Paraná.
Realizamos pesquisas nos jornais da época, estamos fazendo uma série de entrevistas com alunos e maes de alunos que estao revelando aspectos bem interessantes, como por exemplo que o movimento não parou durante o carnaval e que a duração do mesmo foi de menos de dois meses, o que configurou uma eficácia extraordinária.

Histórias interessantíssimas aconteceram nesse período e que merecem ser contadas e complementadas pelos nossos companheiros de luta