Revisão Entrevista Tuninho
Para voces verem a importância que está sendo dada ao projeto do livro Sua Excelência O Excedente, o Tuninho leu a síntese da entrevista dele e nos enviou uma revisão. Seria muito bom para o projeto e para todos nós que todos os participantes do moviemnto se manifestem, seja através de depoimentos, seja através de comentários aos fatos que estão sendo expostos neste espaço.
Façam seus comentários e críticas. Acessem o comando comments que se encontra no final desta postagem e terão a disposição uma janela para fazer as considerações / críticas que ficarão incorporadas e poderão ser lidas e (re)comentadas por outros leitores.
A seguir a revisão da entrevista do Tuninho:
arq "entrevista com o tuninho revisada.doc"
Entrevista com o: Antonio Carlos de Miranda – Tuninho.Data: 24/01/2006 – casa do Zé Maria. Presentes: Zé Maria, Baixo e PCXS.Porque Engenharia Química? Na infância, morava nos fundos da farmácia do pai e vivia querendo mexer na vidararia do laboratório de manipulação para aviar receitas. Motivado pela prática do aeromodelismo e pelo fascínio de shows aéreos no Aero-Clube de Manguinhos na adolescência, ingressou na Escola Preparatória da Aeronáutica em Barbacena – MG. Ele queria ser aviador, mas não tinha vocação para carreira militar, porque era indisciplinado e vivia preso. Como o mundo é pequeno, naquela escola foi colega do Ivan (Catodo), do veterinário Paulo Roberto, assistente do professor Khön (?), do irmão do Ademir, que também é químico e do irmão do Catramby, que é brigadeiro.Abandonou a carreira militar quando terminou o “científico” e em 1964, foi trabalhar como arquivista de desenhos técnicos em Furnas. A facilidade que tinha em aprender química, apesar de maus professores, o levou a fazer vestibular para a ENQ em 1965, porém não passou. Estava insatisfeito com o trabalho e mantinha a pretensão de ser químico. Pediu as contas em Furnas, conseguiu uma bolsa no curso Vetor com o professor de química, Vitor Nótrica e prestou novo vestibular, apenas para a ENQ em 1966. Quando foi verificar o resultado do vestibular, havia muitos candidatos junto ao quadro de avisos. Por causa do tumulto e da distância, tinha dificuldade de conferir a lista. Ao seu lado, um cara grandalhão boa praça, ofereceu ajuda - era o Samy, que disparou: “você não passou e está classificado logo depois de mim, mas fica frio meu chapa”, foi logo dizendo que havia um movimento se formando para forçar o governo a aumentar as vagas e aproveitar os candidatos aprovados excedentes. Ele pediu o telefone para contato e na semana seguinte, foi chamado a comparecer ao pátio do Ministério da Educação. Lá chegando encontrou o Samy, o Maranhão, o Baixo, o Mario Newton, o Rafael, o Ronald, o Alberto Macaco e sua mãe, o Eugênio e seu pai, a Ana Maria, a Telma e a Sandra Ribeiro, acompanhadas das mães que mantinham os ânimos elevados e as esperanças acesas. Ainda muito desolado, pressentiu uma esperança e passou a freqüentar o pátio do MEC. Naquela ocasião foi a duas reuniões: na casa do Raja Gabaglia e provavelmente na casa do Victor Catramby. Nessas reuniões e no pátio do MEC, o Maranhão já despontava com liderança lúcida e conciliadora, mas também havia propostas de radicalização, tais como atirar pedras nas janelas do MEC e invadir o gabinete do Ministro da Educação em plena ditadura: era o Guerra!... Mas a liderança de fato e a iniciativa das ações era exercida pelo pai do Eugênio, com a participação ativa das mães da Telma e da Sandra, para formar comissões, visitar professores, membros do conselho federal de educação, políticos, meios de comunicação, etc. Nota do entrevistado – não posso afirmar ou julgar que os pais militares não ajudaram, (os meus pais e os de muita gente também não ajudaram o movimento). Sei que os filhos estavam lá: a Ana e a Terezinha (com as mães), porque naquela época moças não andavam desacompanhadas; lembra? Após um mês de concentrações no pátio do MEC, constatou-se que essa concentração não causava impacto à população, pois o grupo de excedentes ficavam engolidos pela multidão do pátio, local de grande circulação de pedestres. Então o pai do Eugênio, com entusiástica motivação, propôs que acampassem lá mesmo, criando um acampamento dentro do pátio. Começaram com uma barraca e com uma faixa reivindicando as vagas para os excedentes. A barraca servia de sede do comitê e era montada e desmontada todos os dias. Aquela barraca tornou-se a “bandeira” do movimento. Alguém conseguiu barracas de campanha da PM, confeccionaram mais faixas e cartazes e organizaram turnos para e montaram um acampamento permanentemente. Neste rodízio, o Tuninho ficou na “turma da noite”, junto com o Samy, o Baixo, o Maranhão, o Moscou e o Guerra. O Samy levou o baralho e o Baixo o violão... As meninas ficavam até tarde, mas não à noite (como convia ao costumes da época). Eram 5 barracas e alguns sacos de dormir. Lembra que sempre havia alguém do movimento falando nas rádios e TVs, inclusive no programa do Chacrinha, o mais popular programa de TV da época. Fizeram até música e havia gozação acerca daquele novo estado ocupacional: -“você trabalha ou estuda?” “Não, sou excedente!”. As notícias e fotos começaram a sair nos jornais. Isso incomodava. No Ministério da Educação exigiram que retirassem as barracas, fato que não podiam acatar, pois perderiam a visibilidade. O movimento incomodava e começava a fazer efeito! Ir a rádios e TVs não era a função do Tuninho - a dele era ficar na turma da noite no acampamento. Havia uma organização, com funções predeterminadas e estratégias de ação. Tinha sempre cerca de 20 pessoas no acampamento. Alguns dos mais assíduos, além dos já citados que o Tuninho lembra: Gentil, Celso Colombo, Bala, Vitor, Diana, Alexandre, Raja Gabaglia e outros próceres injustiçados pela memória, que novos entrevistados corrigirão. Alguns dias após o pedido de retirada das barracas, numa madrugada de domingo, às 4h, a PM invade o acampamento, derrubando as primeiras barracas e acordando a rapaziada. Alguém avisa para não quebrar as barracas, pois elas eram da própria PM. Os PM passaram a agir com mais educação e até ajudaram a desmontar as barracas. Ficharam cada um dos acampados e os levaram, um a um, às suas casas. A ação foi comandada por um tenente, muito estranha por parte do pelotão da PM, já que em plena ditadura, estava acostumada a “baixar o cacete” nos movimentos estudantís. Houve uma clara orientação para agir com moderação com aqueles rapazes. Considerando o fato de que a remoção das barracas era inevitável e prevista, é possível que houve ingerência de algum coronel, ou de alguém muito influente, para amenizar a violência contra os colegas de seus filhos que estavam acampados.A primeira hipótese de aproveitamento dos excedentes foi na Universidade Federal do Paraná. Mais tarde, Porém, os excedentes que permaneciam no pátio do MEC foram comunicados da grande possibilidade de abertura de Escola de Química na Universidade Rural e que haveria uma assembléia com os alunos e professores daquela Universidade. Formaram uma comissão para ir até lá para e se inteirar da situação: Celso, Samy, Bala, Ronald, Rafael, Eugênio, Maranhão, Macaco e o Tuninho. Não sabiam chegar na Rural e pararam meio perdidos na Av. Brasil, em Guadalupe. Aos trancos, chegaram ao km 47 da antiga estrada Rio-S.Paulo. Ao entrarem no PI, na Rural, foram mal recebidos pelos verdureiros e capa-gatos, que estavam reunidos, em grande número na entrada e corredor que dá acesso ao auditório da Rural. Passaram por verdadeiro “corredor polonês” e se viram acuados. O Tuninho achou que iriam passar por uma sessão de trote. O auditório estava lotado, mas foram levados para as primeiras fileiras, onde havia lugares reservados para eles. Sentados à mesa, no palco, estavam os Prof. Alvahido, o Reitor Paulo Dacorso e o Paulinho, Presidente do Diretório de Alunos da Rural. Este fez um discurso inflamado questionando o Prof. Alvahido e o Reitor, porque queriam criar o curso de Química e não era atendida as prioridades dos cursos de Agronomia e Veterinária, como o curso de Zootecnia e as obras no hospital veterinário. O Prof. Alvahido expôs que historicamente o estudo de química no Brasil tinha sido iniciado na Escola de Agronomia e que ao insistir na reintegração da Escola de Química estava pensando no futuro da Universidade Rural e retornou a palavra ao Paulinho, que, sabendo da determinação do reitor, deu o fato consumado e desejou boas vindas aos novos alunos, convidando alguém da comissão que falasse em nome dos demais. O Ronald tomou a palavra agradecendo aos presentes e emocionado, falou que não pretendíamos tirar vaga de ninguém e se faltassem vagas nos alojamentos, dormiria até no banheiro que tinha visitado! Na saída da assembléia, foram tratados como “bichos”. Estava vencida a primeira batalha! A ela segue uma nova vitória, com a criação da Escola de Química na Universidade do Paraná. Outras vitórias sucederam-se nos quatro anos do curso: a aceitação e identidade dos saboeiros na Rural, a oficialização do curso no Conselho Federal de Química, a liderança política exercida na Universidade e o marco histórico que nossa turma legou ao criar um curso.O Tuninho e o Baixo acham que a decisão da criação da Escola de Química na Rural deve ter sido no final de março, pois o Baixo foi passar 15 dias na Europa e deixou procuração com o recém conhecido Tuninho para fazer sua matrícula no dia 11/04/1966. Quando iniciaram as nossas aulas na Rural, o Baixo já estava de volta. Lembra que não havia salas definitivas para nós, porque tinham sido programadas para os cursos cujo ano letivo já haviam iniciado. A turma ficava aguardando nos corredores, vagarem salas e laboratórios para aulas, que na maioria das vezes eram no anfiteatro do P1. No início eram 100 vagas e o último admitido foi o Gentil Pedreira. O Paulo Cesar, dividiu o seu armário com ele e guardava embaixo da cama o colchão que ele dormia.O que mais o marcou o Tuninho na Rural: a excelente qualidade do campus e a vida universitária – tem certeza que foram os anos mais felizes de sua vida. O Zézinho lembra muito bem: na Rural éramos nivelados social e econômicamente, todos estavam no mesmo barco e com o mesmo objetivo. Outro ponto importante: a excelente qualidade do ensino e a dedicação dos professores, em especial do Prof. Horácio Macedo, muito bem homenageado pela turma. Criou-se espírito de companheirismo muito forte. Comparando, o Tuninho que tinha experiência anterior na escola militar, onde também há esse espírito, lembra que havia também uma série de obrigações cobradas pelos superiores, além de uma competição incentivada entre os alunos. Na Rural não havia esse ônus do militarismo, só tínhamos os bônus da convivência saudável com os colegas e a liberdade total na nossa vida de aluno. Acha que se tivéssemos ido para a ENQ não haveria esse espírito de companheirismo e que o período que passou na Rural foi uma dádiva imensurável.A afirmação e identidade da turma junto ao corpo discente iniciou-se nas quadras de esporte. A Rural tinha a nosso dispor um excelente parque esportivo e a prática foi um grande fator de desenvolvimento do espírito de corpo de nossa turma. Quando lá chegamos, não tínhamos como ser representados em nenhum esporte. Não tínhamos direito a horário para os treinos de futebol, basquete, volei e futebol de salão, nas quadras de esporte, que eram reservados para a agronomia e para a veterinária. Éramos uns peladeiros. O Ademir resolveu formar um time de futebol de salão e desafiar a agronomia. O Tuninho não jogava futebol de salão, mas foi convidado para ser o técnico. Esse jogo desafio foi vencido no último minuto em favor da agronomia, mas esse espírito guerreiro impressionou a todos. O Aranha propôs a formação de uma Associação Atlética nos moldes das outras escolas. Para isso precisavam de uma camisa com as cores que marcariam a Escola de Química. As tradicionais cores de engenharia – azul e branco – já eram da agronomia. A veterinária adotava as cores verde e branco, portanto as cores da Rural já estavam “ocupadas”. Então o Aranha, sempre criativo, propôs que fizéssemos algo novo, diferente e que as meninas de nossa turma escolhessem as cores da camisa. Fio escolhida a camisa na cor grená com gola e mangas cinza e um erlenmayer no bolso, desenhada pelo Surf-boy. O uniforme ficou bonito! Com a inspiração do Aranha e a transpiração do Tuninho, a Associação Atlética foi se formando. O Jonas, encarregado do Departamento esportivo da Rural, conseguiu junto com o coordenador do nosso curso, Prof. Leôncio, uma verba para a Escola ter uniformes e equipamentos. O Jonas foi a ele e conseguiu verba para esse fim. O Tuninho e Aranha foram “instruídos” para colar no Jonas, pressionando-o para a evitar o desvio de recursos nas compras das camisas. Assim, o acompanharam nas lojas de esporte do centro do Rio. O Jonas queria lhes empurrar um jogo velho de camisas existentes e com a verba da química e reequipar o seu departamento. Incluiu compras habituais do dia-a-dia, tais como lâmpadas, bolas, chuteiras, dardos e outros materiais gastando a verba toda. Mas, diante da insistência do Tuninho e Aranha, o Jonas devolveu alguns itens e encomendou não um, mas dois jogos de camisas. Quando saíram da loja, que estava fechado as portas, às 20:30h, disse que éramos muito “cri-cri” e que foi o único grupo de alunos que não conseguiu “empurrar” um jogo antigo de camisas.Na opinião do Tuninho, os atletas e agregados do esporte da nossa turma (o tal grupo dos 20), constituiram a massa crítica indutora na iniciativas de ações ou atividades participativas na vida da Rural e depois dela.

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