03 fevereiro 2006

Entrevista com o Tuninho

Entrevista com o: Antonio Carlos de Miranda – Tuninho.
Data: 24/01/2006 – casa do Zé Maria. Presentes: Zé Maria, Baixo e PCXS.
Porque Engenharia Química? Era cadete da Aeronáutica, em Barbacena, MG, gostava de química, embora o professor não fosse bom, mas ele tinha facilidade na matéria e ajudava os colegas. Ele também havia vivido quase toda sua vida em contato com a química, pois seu pai era prático de manipulação de farmácia – ele até hoje tem receituário químico-farmacêutico em francês, que era utilizado por seu pai. A conjugação de vivência em laboratório e sua facilidade na química o levaram à opção para a Engenharia Química. Ele estava na Aeronáutica porque queria ser aviador, mas não tinha vocação para carreira militar. Desistiu da carreira militar, quando terminou o 2º grau em Barbacena. Fez vestibular para a ENQ em 1965, porém não passou. Trabalhou um ano como arquivista de desenhos técnicos no Departamento de Engenharia de Furnas. Seus colegas queriam que fosse cursar Engenharia Mecânica ou Elétrica de modo que pudesse continuar em Furnas. Ele não conseguia ler os desenhos, não estava satisfeito com seu trabalho e continuava querendo ser Engenheiro Químico. Pediu as contas em Furnas e passou a fazer o que gostava: estudar. Matriculou-se no curso Vetor, preparando-se para vestibular e prestou vestibular apenas para a ENQ.
Quando foi verificar o resultado do vestibular havia várias pessoas junto ao quadro de avisos. Por não ser alto, tinha dificuldade de verificar a lista. Mas a seu lado tinha um cara grandalhão – Samy - que viu que ele estava classificado logo depois dele, mas que ambos eram excedentes, isto é estavam aprovados mas sem vagas. Mas foi logo dizendo que “ficasse tranqüilo, pois havia um movimento se formando para forçar o governo a abrir novas vagas para aproveitar os excedentes”. O Samy pediu seu telefone para contato. Em menos de uma semana foi chamado a comparecer ao pátio do Ministério da Educação. Lá chegando encontrou o Samy, o Mario Newton, o Macaco e sua mãe, o Eugênio e seu pai, a mãe da Telma e a mãe da Sandra Ribeiro. As mães mantinham os ânimos elevados e as esperanças acesas. Passou a freqüentar o pátio do MEC. Nesta ocasião aconteceram reuniões na casa do Raja Gabaglia e talvez na casa do Victor Catramby. Nessas reuniões o Maranhão já despontava com liderança lúcida e conciliadora, mas também havia propostas de radicalização, tais como atirar pedras e invadir o gabinete do Ministro da Educação, por parte do Guerra... Mas a liderança de fato era exercida pelo pai do Eugênio, com a participação ativa das mães da Telma e Sandra. Apesar de haverem filhos de coronéis em nossa turma (Terezinha Espírito Santo, Ana Maria Kneip e José Marcos Mascarenhas), não soube de nenhuma manifestação partindo dessas pessoas em prol de abertura de mais vagas ou de nova escola de química.
Após um mês de concentrações no pátio do MEC, constatou-se que essa concentração não causava impacto à população, pois os alunos ficavam “perdidos” na multidão do pátio, local de grande circulação de pedestres. Então o pai do Eugênio, com sua sempre entusiástica motivação, propôs que acampassem lá mesmo. Alguém conseguiu barracas de campanha da PM. Começaram com uma barraca e com faixas reivindicando vagas. No início a barraca servia de “sede” do comitê e ela era montada e desmontada todos os dias. A barraca tornou-se a “bandeira” do movimento. Pediram que o Tuninho levasse paus para as faixas. Conseguiram mais barracas e organizaram rodízio de pessoas para que as barracas ficassem permanentemente montadas. Neste rodízio o Tuninho era da “turma da noite”, que incluíam o Samy, o Baixo, o Maranhão, o Moscou e o Guerra. O Samy levou o baralho e o Baixo o violão... As meninas ficavam até tarde, mas não à noite. Eram 5 barracas. Lembra que sempre havia alguém do movimento falando nas rádios e TVs, inclusive no programa do Chacrinha, o mais popular programa de TV da época. Mas ir a rádios e TVs não era a função do Tuninho - a dele era ficar na turma da noite no acampamento. Isto é, havia uma organização, com funções predeterminadas e estratégias de ação. As notícias e fotos começaram a nos jornais. Isso incomodava. O ministério pediu que retirassem as barracas, fato que não podiam fazer, pois perderiam a visibilidade. O movimento começava a fazer efeito!
Tinha sempre cerca de 20 pessoas no acampamento. Alguns dos mais assíduos, além dos já citados que o Tuninho lembra: Gentil, Celso Colombo, Bala, Diana, Sandra Ribeiro, Alexandre. Dois dias após o pedido de retirada das barracas, numa madrugada de domingo, às 4h, a PM invade o acampamento, derruba algumas barracas e acorda a rapaziada. Alguém avisa para não quebrar as barracas, pois elas eram da própria PM. Os PM passaram a agir com mais educação e até ajudaram a desmontar as barracas. Ficharam cada um dos acampados e os levou, um a um, às suas casas. Essa ação foi coordenada por um tenente e é de se estranhar aquela ação “suave” da PM, como se o pelotão estivesse orientado a agir com moderação com aqueles rapazes - terá sido o “dedo” de algum coronel para amenizar os colegas de sua(eu) filha(o)?
A primeira hipótese de aproveitamento dos excedentes era na Universidade Federal do Paraná. Por outro lado, souberam da grande possibilidade de abertura de Escola de Química na Rural e resolveram formar uma comissão e ir até lá para se reunir com pessoal daquela Universidade.
Reunião na Rural: Celso, Samy, Bala, Ronald, Eugênio, Maranhão, Macaco e o Tuninho. Não sabia chegar na Rural e ficaram perdidos na Av. Brasil, na altura de Guadalupe. Chegando no PI, na Rural, foram mal recebidos pelos alunos, que estavam reunidos, em grande número na entrada e corredor que dá acesso ao auditório da Rural. Passaram por verdadeiro “corredor polonês” e se viram acuados. O Tuninho achou que iriam passar por uma sessão de trote. O auditório estava cheio, mas alguém os levou para a primeira fileira, onde havia lugares reservados para eles. Sentados à mesa, no palco, estavam os Prof. Alvahido, o Reitor Paulo Dacorso e o Paulinho, Presidente do Diretório de Alunos da Rural. Este atacava o Prof. Alvahido questionando-o porque a Universidade queria abrir curso de química e não abria o curso de Zootecnia. O Prof. Alvahido expôs que historicamente o estudo de química no Brasil tinha sido iniciado na Escola de Agronomia e que pensava no futuro da Universidade Rural e retornou a palavra ao Paulinho. Este, por sua vez, deu boas vindas aos novos alunos e convidou alguém da comissão que falasse em nome dos demais. O Ronald tomou a palavra agradecendo e disse que não iria tirar vaga de ninguém e disse que dormiria até no banheiro! Na sida já forma tratados como “bichos”...
Segundo o Tuninho, a decisão sobre a abertura da Escola de Química na Rural de ter sido no final de março, pois o Baixo foi passar 15 dias na Europa e deixou procuração com o Tuninho para fazer sua matricula e no dia 11/04/1966, quando iniciaram as nossas aulas na Rural, o Baixo já estava de volta. Lembra que não havia salas definitivas para nós, pois as salas tinham sido programadas para os cursos cujo ano letivo já haviam iniciado. Muitas vezes ficávamos aguardando nos corredores para que vagassem salas de aula. No início eram 100 vagas e o último admitido foi o Gentil Pedreira. Eu, Paulo Cesar, dividi meu armário com ele e, na falta de cama, durante alguns dias, ele dormia num colchão, que era guardada embaixo de minha cama.
O que mais o marcou na Rural: as instalações, a boa qualidade do campus – considera que foram alguns dos anos mais felizes de sua vida. O Zezinho lembra muito bem: na Rural éramos todos nivelados por cima. Outro ponto importante: a dedicação dos professores e em especial do Prof. Horácio Macedo.
O espírito de companheirismo muito forte – ele tinha vindo da vida militar, onde há esse espírito, porém, nós tínhamos isso sem os ônus do militarismo. Tínhamos os bônus, sem os ônus. Acha que se tivéssemos ido para a ENQ não teríamos vivido esse espírito de companheirismo e a opção pela Rural foi ótima.
As quadras de esporte também era outro ponto de destaque, pois a Rural tinha a nosso dispor um excelente parque esportivo. O esporte era um grande fator de desenvolvimento do espírito de corpo de nossa turma. Quando lá chegamos não tínhamos nenhum time, em nenhum esporte, não éramos representados em nada. Não tínhamos nem horário nas quadras de esporte, que eram primeiro para a agronomia e segundo para a veterinária. Alguns gostavam de bater bola e a partir desses peladeiros, o Ademir resolveu formar um time de futebol de salão e desafiar a agronomia. O Tuninho não jogava futebol de salão, mas foi convidado para ser o técnico. Esse jogo desafio foi vencido no último minuto em favor da agronomia, mas esse espírito guerreiro causou boa impressão a todos. O Aranha propôs a formação de uma Associação Atlética. Para isso precisavam de camisa com as cores que marcariam a Química. As tradicionais cores de cursos de engenharia – azul e branco – já eram da agronomia. Por sua vez a veterinária adotava as cores verde e branco, portanto as cores da Rural já estavam “ocupadas”. Então o Aranha, sempre criativo, propôs que fizéssemos algo novo, diferente e que as meninas de nossa turma escolhessem as cores da camisa. Ficou sendo grená com gola e mangas cinza e um erlenmayer no bolso. O uniforme ficou bonito! Assim, com a inspiração do Aranha e a transpiração do Tuninho, a Associação Atlética foi se formando. O Jonas, encarregado do Departamento esportivo da Rural, considerou que a nova Escola deveria ter verba para uniformes e equipamentos. A nossa Escola ainda não tinha um representante oficial junto à reitoria, mas éramos representados pelo Prof. Leôncio. O Jonas foi a ele e conseguiu verba para esse fim. O Tuninho e Aranha foram “instruídos” para colar no Jonas, pressionando-o para a compra das camisas. Assim o acompanharam nas lojas de esporte do centro do Rio. O Jonas queria lhes empurrar qualquer jogo velho de camisas e com a verba da química reformar seu departamento incluindo compras habituais do dia-a-dia, tais como lâmpadas, bolas, chuteiras e outros. Mas diante da insistência do Tuninho e Aranha o Jonas devolveu alguns itens e encomendou não um, mas dois jogos de camisas e saíram da loja, que já havia fechado as portas, às 20:30h, dizendo que foi o único grupo de alunos que o pressionou a ponto de não conseguir “empurrar” um jogo antigo de camisas.