O Olhar extraordinário
O OLHAR NO EXTRAORDINÁRIO DA NOSSA TURMA
Nos últimos tempos venho pensando muito na historia da nossa turma e tem me impressionado a quantidade de desafios que enfrentamos, as lutas que empreendemos e as dificuldades que ultrapassamos, todos nós bastante jovens, com pouca experiência de vida e sem grandes historias de realizações pessoais. A verdade é que muitos destes desafios teriam desanimado muitas pessoas e ate mesmo nem teriam sido consideradas as possibilidades de enfrentá-los. Como exemplo deve ser citado que o comportamento geral e normal do jovem que não passava no vestibular ou não lograva classificação era fazer novo vestibular, fazer outra faculdade, dirigir seus esforços para outras atividades e até mesmo desistir da carreira universitária.
A nossa turma confrontada com a não classificação na Escola nacional de Química para a carreira de Engenheiro Químico decidiu pelo não usual, enxergou na não classificação uma agressão aos seus direitos e resolveu enfrentar a situação, exigindo seus direitos e não economizando esforços para conseguir que eles fossem respeitados.
A luta não foi somente essa, pois passou pela criação de uma Faculdade de Química – com oferta de 100 vagas - na Universidade Rural do Brasil que era da área do Ministério da Agricultura e não do Ministério da Educação como a Escola Nacional de Química e passou também pela abertura de 100 vagas na Escola de Química da Universidade do Paraná com 60 vagas para excedentes do Rio de Janeiro e 40 para excedentes da própria Escola do Paraná.Passou pelo trabalho constante na Universidade Rural para aparelhar seus laboratórios e salas de aulas para atender ao novo curso; pelo relacionamento destes 100 jovens de origens distintas, e pelo entendimento necessário com os alunos de outros cursos da Rural, principalmente da Agronomia e da Veterinária, todos eles com perfis inteiramente diferentes dos que estavam entrando na Escola de Química recém criada.
É absolutamente necessário enfatizar e agradecer a dedicação e empenho dos nossos professores - que podemos dizer sem nenhuma soberba que eram a nata docente do país - quase todos da ENQ, que se deslocavam diariamente do Rio para o km 47 da antiga Rio - São Paulo onde ficava a Rural, e não poupavam esforços para nos oferecer as melhores condições de ensino, investindo tempo e conhecimento em nossa formação.
Os estudantes de Agronomia e Veterinária eram, em sua maioria, oriundos da zona rural do país, tinham hábitos e costumes bastante diferentes dos excedentes da ENQ e o relacionamento com eles era e foi um exercício complexo de habilidade e flexibilidade, sem ofender suas origens nem deixar de aprender o que tinha para ser aprendido. Um exercício de sabedoria, exercida mesmo sem saber sua gênese.
Um relacionamento com os colegas de Curitiba e os não colegas da Universidade enfrentando todas as dificuldades, como chegar em grupo a Curitiba, cidade que a maioria nem conhecia, com forte ascendência da cultura alemã, sem conhecimento das pessoas e praticamente nenhum na cidade, sem lugar prévio para ficar, pois cada um, ao chegar teve que procurar alojamento na cidade e em seguida fazer a vida cidade e na Faculdade, vivendo com pessoas que tinham cultura inteiramente diferente e assim mesmo continuar e se fazer respeitar.
O que levou jovens não ter receios de reivindicar junto as autoridades muitas delas militares, em um regime militar onde o normal era aceitar as ordens e procedimentos ditados pelo poder centralizador de um regime de força, e buscar seu espaço? O que levou a um desprendimento sem par ao fazer coisas impensadas até então, como buscar apoio junto aos familiares, formar parcerias impensadas, levantar dados e informações tão diversificadas como, por exemplo: quais os quantitativos de estudantes em salas de aulas de engenharia; histórico dos vestibulares passados na ENQ; custos de manutenção de alunos em cursos superiores similares aquele para o qual tinham prestado vestibular; locais na cidade onde poderiam ser instaladas salas de aula; elaboração de manifesto com grande poder de informação técnica e enfoque político adequado às condições e as necessidades; tudo isso com um poder de organização e timing invejáveis, como os resultados comprovaram.
A reflexão sobre o movimento feita agora por quem o acompanhou totalmente, refinada pelo tempo decorrido e apurada em função do olhar apurado feito em cima da historia acontecida, com levantamento dos dados e análise das informações leva a uma constatação extremamente interessante dos fatos e dos resultados obtidos, como pode ser observado a partir das seguintes constatações, todas elas reais e comprovadas:
1- O movimento partiu do nada, não tinha nenhum ponto de apoio e nenhuma alavanca para se movimentar; o que teve foi criado pelos atores;2- O momentum da luta foi muito intenso e muito rápido;
3- A integração com pais / mães foi muito intensa;
4- Os participantes acreditavam plenamente na luta;
5- A participação foi intensa;
6- A dedicação foi total;
7- O desprendimento dos vestibulandos foi notável: jovens falando com ministros sem receios (e ministro naquela época tinha uma investidura de autoridade muito forte); jovens viajando sozinhos para encontrar e falar com ministro em Brasília, em avião de pára-quedista com passagem conseguida por uma das mães e voltando de ônibus (caso do Rafael) e para Curitiba para falar com o Reitor da Universidade do Paraná (caso do Ronaldo que foi e voltou de ônibus para Paranaguá encontrar seu pai e depois falar com o Reitor);8- A criatividade em conseguir uma bandeira e cristalizar sua imagem na mídia, com a efetivação do acampamento no pátio do MEC, que ajudou a divulgar o movimento: estratégia política e tática de marketing;9- A eficácia e efetividade do movimento:
a. - Desencadeado em início de fevereiro em março estava criado o Curso de Engenharia Química na Universidade Rural – as aulas começaram em março mesmo – já com currículo aprovado e professores definidos (diga-se de passagem, currículo elogiado e professores da mais alta qualificação);b. - As aulas na Escola de Química do Paraná começaram em junho, praticamente dando vida a uma Escola recém criada e que se ressentia da falta de alunos e por que não dizer de uma certa irreverência que ajudaram a flexibilizar o curso e os próprios estudantes locais.
Mais interessante é a verificação de que não se estava elaborando nem executando um projeto de entrar na faculdade, o que foi conseguido com a criação do curso na Rural. A análise dos tempos seguintes nos permite afirmar que estava em curso na verdade o início de um processo muito mais amplo e abrangente de modificação profunda na relação estudante x sistema de ensino, que envolvia entre outros:
1- Uma nova forma de relacionamento dos alunos com os alunos de outros cursos, dos alunos com os professores e dos alunos com os administradores universitários;2- Uma relação de profundo respeito com o pessoal administrativo da Universidade;3- Um interesse profundo pelas questões conceituais e práticas da Escola, refletida em atitudes de construção de bancadas de laboratórios até luta pela participação no Conselho Universitário da URB e pelo reconhecimento do curso no Ministério da Educação;
4- Uma participação esportiva em todos os segmentos existentes na Rural;5- Uma participação efetiva na área cultural com alavancagem do cine-clube e otimização do uso do cine-teatro-auditório na Rural – no prédio principal da Universidade, o P1 existia um cinema onde, de 3ª a 6ª feira eram exibidos filmes comerciais para o publico da região, estudante ou não e segunda feira era dia sem uso; aproveitando este vazio e aproveitando também que a 2ª feira era dia de pouco movimento nos cinemas do Rio de Janeiro e em que comumente as companhias teatrais descansavam, aproveitou-se para exibição neste dia filmes de arte e apresentação de peças teatrais – neste cine teatro foi apresentada entre outras a peça Dois Perdidos Numa Noite Suja do dramaturgo Plínio Marcos, com o próprio e Fauzi Arapi, dupla que protagonizou a melhor performance da peça;
6- Uma participação política, como grupo, de certa forma modesta, mas sempre pautada pelo equilíbrio; ainda assim devem ser citados a criação e funcionamento do Diretório Estudantil da Escola de Química e da Associação Atlética; considerando a participação individual a contribuição foi brilhante, pois um de seus componentes (o Ademir Santiago) chegou a ser Presidente do DCE , isso em 1968, dois anos após a criação do curso.
Nessa luta continuada chama atenção o trabalho efetuado para o reconhecimento do curso junto ao Ministério da Educação, processo reconhecidamente lento e que todos os que tinham experiência no assunto diziam ser praticamente impossível ser concluído em menos de 05 anos. Pois os inexperientes conseguiram levar o processo a bom termo em menos de 01 ano, um feito muito festejado por todos na Rural, pois alem de garantir um diploma reconhecido pelo ministério da Educação, como qualquer outro de qualquer curso ainda dava a Universidade Rural uma nova dimensão no cenário nacional.
Esse processo teve continuidade profícua, quando se sabe que alavancou a passagem da Universidade, então U. Rural do Brasil do âmbito do Ministério da Agricultura para o Ministério da Educação, aumentando a amplitude da Universidade, otimizando o acesso a recursos financeiros de informação e colocando-a no mesmo patamar das demais universidades brasileiras, potencializando a criação de outros e diferenciados cursos possíveis com a nova investidura da universidade. Essa mudança de configuração estrutural aconteceu durante a passagem da nossa turma pela Rural.
Tantas conquistas, em segmentos os mais distintos, de aspecto prático, de cunho social com ênfase no relacionamento interpessoal, nas áreas culturais, esportivas e políticas, em tão pouco tempo, configuram uma atividade transformadora e com eficácia, uma atitude empreendedora. Mostram que o grupo não se conformava nem queria apenas seguir rumos do conforto profissional que era praticamente garantido naquela época com a conclusão do curso. Queria mais, estava indo contra o status quo vigente, estava lutando contra o establishment, queria mais: fazer seus próprios caminhos, criar e continuar a ousar.
Esse espírito teve prosseguimento no pós Universidade pois a turma continuou se reunindo em almoços, eventos maiores a cada cinco anos e tendo uma base de sustentação na manutenção da base de dados constantemente atualizada e disponibilizada para os interessados e a troca de informações entre os colegas. Isso sem dúvida realça o espírito de corpo da turma, favorece a adesão e mantem a união.
Os fatos são inquestionáveis, mas o que sempre me chamou atenção foi o porque desse furor empreendedor naquela turma, o que levou aquele grupo a ser o que foi, a ser o que é, uma vez que continuam se encontrando com uma participação de cerca de 40 a 50% da turma em encontros qüinqüenais com seus familiares e em grupos menores em almoços até mesmo mensais?Muitas coisas têm sido levantadas para explicar a luta, a união, o processo criativo e transformador, como por exemplo:
· Ter contado com um grupo competente e interessado de pais e mães, com alta capacidade aglutinadora e de organização ajudou a dar forma e estruturar o movimento;
· O fato de a turma ter tido sempre que lutar para conseguir seus propósitos exacerbou o espírito corporativo;
· A entrada em grupo em um ambiente onde as pessoas tinham outros hábitos e costumes e era de certa forma hostil como pela situação que se apresentava – um grupo de alunos para disputar recursos financeiros e materiais que não estavam sobrando para os que ali estavam - deveria mesmo ser obrigou ao fortalecimento da união como forma de defesa e conservação;· Como na época os estudantes formavam turma e seguiam juntos a cada ano fazendo as mesmas matérias –ainda não tinha sido adotada o sistema de créditos que desfez as turmas, dissolveu os relacionamentos continuados e pulverizou o companheirismo – juntava as pessoas e promovia a agregação dos colegas, fortalecendo a amizade;
· O sistema de Universidade, configurando um verdadeiro campus universitário, onde os alunos ficavam juntos nas salas de aulas, no refeitório, nos momentos de lazer, e até dormiam e estudavam nos mesmos quartos, criava uma situação de favorecimento ao fortalecimento do espírito de equipe;· O próprio ambiente da Universidade Rural, com seus campos gramados e arborizados, seus lagos plácidos, seus pavilhões de belas construções de estilo colonial que acolhiam com conforto e cuidado seus passantes, tudo no campus passava uma tranqüilidade ao feliz habitante e facilitava a integração do homem com a natureza, propiciando uma paz de espírito e uma vontade de se relacionar com harmonia com os companheiros e com o meio ambiente.Tudo isso explica a união e o fortalecimento dos laços de amizade e até mesmo mostra fatores que ajudaram a conseguir o atingimento dos objetivos, mas existe uma anterioridade que necessita ser buscada, entendida e explicitada: o porque dessa turma ter desenvolvido e bem esse processo já que nenhum deles tinha conhecimento nem experiência neste assunto que deveria envolver necessariamente: conhecimento, vivência, capacitação, planejamento, programação, experiência para lidar com questões complexas que geralmente aparecem no desenrolar de processos como este capacidade de execução, controle e acompanhamento (características comumente desejadas e procuradas em profissionais de nível superior com algum tempo de vivencia da profissão), o que nenhum deles tinha ou sabia que tinha, mas que certamente nunca havia sido explicitado com tanta ênfase?Tenho defendido sempre que a turma era especial nas suas individualidades e principalmente no seu conjunto, porque sem uma carga grande de características peculiares, diferenciadas do comum, de pensamento não conformado com a rotina, com uma visão do extraordinário, não seria possível a concretização de objetivos super audaciosos como aqueles do movimento e mais ainda na manutenção da luta durante os anos da Faculdade e continuados nas reuniões qüinqüenais com participação de mais de 50% da turma e reuniões mais freqüentes como os almoços mensais que chegam a reunir 20 colegas de turma. A turma era especial sem dúvida alguma, mas me faltava o embasamento técnico cientifico do modus comportamental dos integrantes da turma, no plano individual e do coletivo que explicasse e definisse esse extraordinário, esse especial de que eu tinha certeza, aquele grupo de revestia.
Na seqüência das entrevistas que vimos fazendo para formar a base de informações do livro Sua Excelência o Excedente, chegamos ao contato com o Aranha, que hoje é o Diretor do Instituto Gênesis, órgão da PUC-Rio que faz com competência a ponte estudante mercado de trabalho, despertando, incentivando e promovendo o empreendedorismo destes jovens, inclusive operando a Incubadora de Empresas e viabilizando a formação de Empresas Juniores, e que teve um papel importante na historia da nossa turma e da Escola de Química da Rural.
Durante a entrevista ele fez um comentário que bateu direto na gente – os entrevistadores – sobre o melhor aproveitamento de extratos das turmas que se prestam melhor ao empreendedorismo. Ele comentou que historicamente em cada turma existe um extrato composto pelos alunos que tem melhores resultados acadêmicos, que são os que se aplicam mais e procuram as melhores notas; em seguida vem um extrato composto daqueles alunos que são competentes, aplicados, mas nem tanto e que não se preocupam tanto com notas, mas tem conhecimento do assunto. A terceira faixa é dos alunos que nem se aplicam, nem tem bons resultados nem se preocupam com isso. Segundo ele a primeira faixa – dos alunos com melhores notas – é a daqueles que se preparam para seguir e fazer bem feito o que está e vem sendo feito e, portanto são excelentes profissionais, excelentes gestores e geralmente fadados a uma carreira de sucesso no mundo profissional / comercial estabelecido. São assim excelentes fazedores e gestores.
A segunda faixa é a daqueles que anseiam por mudanças e por serem assim não deixam de seguir os estudos dentro dos parâmetros estabelecidos, mas não se deixam dominar por estes paradigmas, e reservam parte das suas energias para sonhar, pensar em fazer algo novo. Estão na faixa dos que não se conformam com o estabelecido e ficam a pensar – pensar, o bem mais precioso do processo do conhecimento – em como fazer diferente, como fazer melhor. Eles são os modificadores, os transformadores, os construtores e é nessa faixa que se concentra a busca e é maior o interesse pelo trabalho no Instituto Gênesis. Nesta faixa são procurados os empreendedores do futuro. Esse comentário – afirmação do Aranha como que explica e qualifica meu pensamento inicial sobre a potencialidade da nossa turma. Nos não fizemos parte do primeiro faixa dos vestibulandos, visto que este extrato se classificou para a ENQ e possivelmente era a faixa / extrato dos fazedores / gestores. Nossa turma estava toda ela contida na segunda faixa / extrato e, portanto inserida no que se poderia chamar de modificadores / transformadores o que explica a profusão atividades nas quais esteve e está sempre envolvida seja através de suas individualidades seja através do coletivo que se revelou no desencadeamento e execução do processo que culminou na criação do Curso de Química da Rural, no reconhecimento do curso junto ao Ministério da Educação, na ajuda constante para viabilização da escola, na interferência nos esportes e nas artes, no fortalecimento do relacionamento pessoal dos alunos da Rural e na vontade demonstrada pelos seus componentes de fazer mais, de participar mesmo estando alguns com seus projetos profissionais concluídos e suas vidas estabilizadas. Mesmo assim se interessam pela vida e se interessam pelos outros.
Essa é uma explicação com fundamentos práticos concretos e que pode e deve ser trabalhada com levantamento e análise de dados junto a turma que entrou na ENQ naquele mesmo vestibular e também junto as três turmas subseqüentes a nossa já que estas tiveram as mesmas condições que a nossa turma teve na Rural.
O fato existe – realizações expressivas com alta dose de eficácia – a anterioridade que explica e justifica o resultado existe e aponta para uma existência do extraordinário em cada um e no todo e a explicação parece ser essa avançada pelo Aranha.
Falta embasar cientificamente essa explicação e até que isso seja feito – o que pode ser conseguido no desenrolar do projeto do livro, o que inclusive agregará um valor enorme à obra – pode-se dizer:
CQD

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